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Tecnologia
Quinta - 04 de Março de 2004 às 11:16

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Jay Vance sempre foi uma espécie de maluco por controle musical. A bateria tinha que estar no tempo exato. Os solos de guitarra tinham que gritar da mesma forma. Beber antes do show era estritamente proibido, no seu ponto de vista. E fumar maconha para Vance estava fora de cogitação.

Por anos, Vance tentou encontrar músicos à altura de suas rígidas exigências. Ele nunca encontrou nenhum. Assim, finalmente, ele decidiu descartar de vez os seres humanos e construiu para si mesmo uma banda totalmente robótica.

Músicos motorizados já existem há mais de um século, anteriores até mesmo às primeiras pianolas. Mas com o Captured! By Robots, ou C!BR, como a banda foi batizada, Vance, de 32 anos, criou toda uma banda de rock mecânica para turnê.

"Eu fiquei tão cansado de tocar com pessoas: tantos egos, tantas drogas", disse Vance, que vive em San Francisco. "Eu pensei: 'Se construir robôs, talvez eles façam o que eu digo, façam o que eu quero'".

Ele estava errado. Segundo a mitologia do C!BR, a progênie inumana de Vance o escravizou logo após ter sido criada. E agora ela força Vance - vulgo JBot - a levá-la pelo país em turnê, de forma que possa humilhá-lo completamente em uma cidade diferente a cada noite.

Quando Vance, que veste uma máscara preta e correntes no palco, tenta falar com a platéia, o Drmbot 0110 -uma máquina de ritmo com olhos esbugalhados e pescoço sanfonado- grita para que ele fique calado. Quando ele tenta tocar um riff, o Gtrbot 666 - um tocador de braços finos e longos de uma guitarra flying V de dois braços - exibe ao público sua técnica robótica altamente superior.

Em meio às brigas, o C!BR toca um repertório de speed metal, classic rock e funk antigo. Cada turnê tem um tema diferente; no outono passado foi "Os Dez Mandamentos", com JBot como Moisés - na verdade, como Charlton Heston interpretando Moisés - e Gtrbot como Yul Brynner interpretando o Faraó.

São necessários meses para Vance programar as novas músicas, e os resultados podem ser um pouco desiguais. O funk dos robôs é um tanto, digamos, sem alma. O heavy metal parece mais adequado para as criações metálicas.

"A qualidade geral da música não chega perto do que seria se tivesse músicos de verdade", disse Brian Cors, um administrador de sistemas de 31 anos de Ypsilanti, Michigan, que mesmo assim é um fã. "Eu sou um nerd de carteirinha, e ver estes robôs tocando música sozinhos é bastante impressionante."

Vance mexe com instrumentos desde que tentou construir uma guitarra na sétima série. Na época em que começou a estudar jazz na Universidade DePaul, em Chicago, ele remontou alto-falantes quebrados e construiu captadores para seu baixo acústico.

"Ele era fantástico em seu instrumento", disse Tony Aimone, que tocou com Vance nos anos 90 nos Blue Meanies, uma banda de ska de Chicago. "O problema é que ele também se considerava fantástico nos instrumentos de todos os demais. Ele dizia a todos como tocar."

Uma passagem por um grupo de San Francisco chamado Skankin' Pickle não foi mais harmoniosa. Vance disse que desistiu após seus companheiros de banda, bêbados, entregarem seus instrumentos para algumas pessoas da platéia no meio de uma apresentação em Fort Collins, Colorado.

Para sua nova visão musical, Vance testou mais de uma dúzia de guitarristas, sem sucesso. Foi quando ele percebeu que precisava encerrar os testes e começar a construir sua banda definitiva.

Mas havia um pequeno problema: ele não sabia nada sobre robótica ou programação de computadores.

Foram necessários três anos de esforços para que ele pudesse aprender o que precisava para construir sua banda. Primeiro, ele precisava aprender técnicas mecânicas, como soldagem, prensagem e manipulação de metais. Então ele passou para engenharia elétrica, aprendendo a criar placas de circuito integrado sob medida. Ele teve que dominar edição de áudio e programação de seqüenciadores, que agora são lugar-comum nos estúdios de música, mas que eram mais raros nos anos 90. E se tornou um programador habilidoso o bastante para criar um aplicativo para controle das ações dos robôs.

Estranhamente, o resultado é de certa forma um recuo para os primeiros dias dos instrumentos automatizados. Paul Lehrman, um compositor e autoridade em música mecânica e eletrônica, disse que no final dos século 19 e começo do século 20, ar comprimido, ou pneumática, era usado para movimentar órgãos mecânicos, instrumentos de sopro e até violinos.

Hoje, o C!BR é controlado em grande parte da mesma forma. Uma série de computadores ativa válvulas de ar que permitem que o ar comprimido circule de forma controlada. Tais jatos movimentam os dedos mecânicos que dedilham as guitarras e batem na bateria. A pneumática também gera o movimento dos robôs, lhes dando um balanço perturbadoramente humano.

Mas os músicos robôs são mais do que apenas um atrativo visual para a platéia. Em uma época em que muitos compositores estão se voltando para música sampleada e gerada por computador, Vance gosta do estilo natural de seu grupo não natural.

Bateria eletrônica, por exemplo, está fora de questão. "Você precisa bater na bateria de verdade", disse ele. "É desse jeito que eu quero."





The New York Times




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