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Tecnologia
Terça - 22 de Outubro de 2002 às 09:08

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Santiago, Chile (Reuters) - Da vitrine, vê-se umas dez pessoas sentadas diante de monitores de computadores ligados, mas nada aparece na tela. Quem entra nessa antiga mansão do bairro Providencia, zona leste da capital chilena, percebe que não se trata de um cibercafé qualquer pelo ruído de vozes humanas e metálicas misturadas.

Ao lado do mouse, na mesa, há uma bengala; um cão-guia descansa junto a uma cadeira; e, diferentemente de outros lugares que oferecem conexões de internet ao público, nas paredes não há pôsteres, mas estantes contendo livros em braile.

"Não se trata de um cibercafé. Dizemos, por aqui, que é um 'não-ver' café", brinca Mario Hiriart, presidente da fundação privada Biblioteca Central de Cegos e gerente do primeiro cibercafé para cegos no Chile.

"De acordo com as informações que obtivemos na rede, ele não só é o primeiro do Chile, mas deve ser a primeira experiência de um cibercafé para cegos na América Latina, e não temos indicações de que existam muitos outros estabelecimentos como ele no mundo", comentou Hiriat.

A idéia surgiu da Biblioteca Central de Cegos, uma fundação privada, como resposta à falta de comunicação em que vivem muitos dos 250 mil cegos do Chile em meio a uma população de 15 milhões de habitantes.

Dentre eles, entre 40 mil e 50 mil são completamente cegos e, em sua grande maioria, requerem assistência econômica para que possam se educar e capacitar, de acordo com informações oficiais.

"Tive trabalho, foi difícil. Mas o que quero é aprender a navegar, para me comunicar com os demais, para interagir", comenta Fabián Rodriguez, estudante de Direito, enquanto aprende a abrir páginas na web.

Os usuários pagam cerca de US$ 1,50 para que um monitor os ensine a navegar. Passam por algumas semanas de treinamento antes que possam navegarem sozinhos, o que fazem gratuitamente, porque a fundação banca o custo da conexão com a web.

Eles utilizam um programa especial chamado Jaws, bastante caro, mas que conseguiram por doações particulares, ajuda estatal e de uma fundação para cegos na Espanha.

Para navegar, os usuários executam o Jaws, digitam suas ordens e recebem informações em fones de ouvido ou nos alto-falantes dos computadores.

Apesar de sua cegueira, um brilho percorre os olhos de Hiriart quando se lembra da fundação do cibercafé há uns meses. Hoje, o local conta com 30 clientes que regularmente conferem e-mails, lêem páginas da web ou baixam música nos 12 computadores do lugar.

"O principal problema do cego é sua solidão. E esta é uma ferramenta para vencê-la e nos comunicarmos", disse Hiriart. Outra diferença entre esse e os demais cibercafés pelo mundo é que aqui o café é servido longe dos computadores para evitar acidentes.

Se caminhar com um bastão ou ler braile pode ser uma tarefa complicada, usar a internet corretamente é um obstáculo adicional para os deficientes visuais. Os alunos, em sua maioria jovens, concordam que a tarefa é complicada, mas o esforço vale a pena no final.

A surpresa é um professor cego de 70 anos, Fernando Henríquez, que ganha a vida como vendedor de rua. Treinado em datilografia e informática, ele é um dos usuários mais experientes do cibercafé. Mas apesar da tecnologia, Henríquez não esquece de seu passado como leitor. Enquanto tecla no computador com uma mão, ele lê em braile com a outra.





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