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Saúde
Segunda - 03 de Agosto de 2009 às 10:43

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Uma nova abordagem para o tratamento da obesidade pode vir a ser propiciada por uma descoberta sobre a maneira pela qual o corpo cria a gordura marrom, ou seja, as células que queimam gordura branca e a transformam em calor para o corpo.


Pesquisadores comandados por Bruce Spiegelman, da Escola de Medicina da Universidade Harvard, reportaram a descoberta na edição de quinta-feira da revista Science. O estudo descreve o sistema natural pelo qual as células de gordura marrom são geradas, a partir de seus precursores.


Spiegelmann empregou esse sistema - formado por uma dupla de proteínas que aciona genes distintos nas células de gordura marrom - para converter células de ratos de laboratórios e humanas em células de gordura marrom. As células de gordura marrom têm papel muito diferente das células de gordura brancas, mais conhecidas. As células de gordura branca armazenam gordura; as células de gordura marrom a queimam como fonte de calor.


Os bebês dispõem de muitas células de gordura marrom, o que os ajuda a manter elevada a temperatura de seus corpos. Até abril de 2009, os cientistas acreditavam que a gordura marrom desaparecesse rapidamente e não existisse em adultos. O Dr. Sven Enerback, da Universidade de Goteborg, na Suécia, e outros estudiosos reportaram, àquela altura, que na verdade parte do tecido das células de gordura marrom persistia nos adultos, despertando a possibilidade de que, caso as células pudessem ser tornadas mais ativas, uma pessoa ganhasse a capacidade de queimar mais gordura.


Em uma linha paralela de pesquisa que agora convergiu com a descoberta sobre a gordura marrom, Spiegelmann vinha há muito tempo estudando as células de gordura branca e a maneira pela qual são controladas pelo organismo. Em 1994, ele descobriu o principal agente regulador das células de gordura branca no corpo. Quando passou a pesquisas sobre as células de gordura marrom, seguiu a suposição geral de que elas derivassem das células de gordura branca.


Um elemento crucial para produzir células de gordura marrom parecia ser uma espécie de proteína conhecida como "dedo de zinco" (porque ela "cutuca" a espiral de uma molécula de DNA para ativar genes específicos). Spiegelman imaginava que, se desativasse todas as proteínas relacionadas aos dedos de zinco nas células de gordura marrom, estas se transformariam em suas precursoras, as células de gordura branca.


A experiência funcionou. As células de gordura marrom se reverteram, mas não se tornaram células de gordura branca, e sim células de músculos. "Foi a experiência mais bizarra que o meu laboratório já conduziu", disse Spiegelmann na quarta-feira.


Sua descoberta de que células musculares são as precursoras naturais da gordura marrom aconteceu no ano passado. Agora, Spiegelmann descobriu que a proteína dedo de zinco, em combinação com uma segunda proteína encontrada em células musculares, é o comutador geral para as células de gordura marrom e também converte células de pele em células de gordura marrom, ainda que não seja esse o processo que a natureza pretendia.


Ele usou essa propriedade comutadora para converter células de pele de ratos de laboratório em gordura marrom, que pareceram funcionar como antecipado quando implantadas nas cobaias. Agora ele está trabalhando em uma segunda experiência, um teste crucial para a possibilidade de desenvolver uso terapêutico, com o objetivo de descobrir o que acontece quando células marrons são implantadas em ratos de laboratório obesos.


Perguntado se os ratos estavam mais magros, Spiegelman respondeu que até o momento os resultados pareciam encorajadores. Mas não acrescentou informações, afirmando que os editores da revista ficariam insatisfeitos caso ele revelasse descobertas apresentadas no estudo antes da publicação.


Um procedimento semelhante poderia ser experimentado para seres humanos, afirmou, caso os resultados de experiências com cobaias animais pareçam promissores. Outras descobertas poderiam produzir a proteína natural para acionar o comutador do dedo de zinco, e essa proteína poderia resultar em um medicamento útil para converter células de pele em células de gordura marrom.


Enerback disse que Spiegelman havia dado ¿um passo realmente importante¿ à frente quanto a elucidar a biologia básica das células de gordura marrom. De acordo com os seus cálculos, afirmou Enerback, a inserção de entre 50 e 100 gramas de células de gordura marrom em uma pessoa poderia permitir queima de tecido de gordura branca à razão anual de cinco quilos ou mais.


Ele afirmou que uma abordagem em forma de terapia celular como a descrita poderia permitir que os depósitos de células de gordura marrom produzida com base em reversão de células da pele de um paciente fossem maiores ou menores, de acordo com as necessidades individuais. Uma terapia como essa não deveria ser usada como forma única de tratamento de obesidade, no entanto, e precisaria ser acompanhada por uma mudança de estilo de vida e outras intervenções.


As células de gordura marrom induzem as células de gordura branca do corpo a dividir seus componentes gordurosos na forma de ácidos graxos. Esses ácidos são liberados na corrente sanguínea e absorvidos pelas células de gordura marrom. Estas últimas contêm grande número de mitocôndrias, os elementos que fazem o papel de baterias químicas de energia nas células vivas.


As mitocôndrias (originadas em passado muito distante como bactérias aprisionadas e escravizadas pelas células) usualmente geram uma forma química de energia. Mas, nas células de gordura marrom, o processo é distorcido e as mitocôndrias em lugar disso geram calor. Porque as mitocôndrias contêm ferro, as células ganham a coloração amarronzada que justifica seu apelido.





Fonte: The New York Times

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