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Ciência
Sexta - 09 de Maio de 2003 às 14:02

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É um lugar estranho para um astrônomo. Meteoros passam voando abaixo dele. Auroras surgem a centímetros de distância de seu nariz. As luzes das cidades piscam, mas o astronauta Don Pettit adora cada minuto dessas experiências.

"Há sempre alguma coisa de bom para ver, da janela da estação espacial", diz Pettit, que além de ser o oficial científico da Estação Espacial Internacional é também astrônomo amador em suas horas vagas.

"Ultimamente, tenho presenciado algumas auroras espetaculares", reporta ele. "Elas oscilam como amebas verdes gigantes se arrastando céu afora. Às vezes, percebo um pequeno toque de vermelho se espalhando por sobre a coloração verde. São luzes que se alteram constantemente. Elas giram. Pontos de brilho mais intenso surgem e desaparecem. Bolhas verdes se transformam em raios que disparam para cima, e vêm enfeitados com estruturas avermelhadas semelhantes a penas, em seus topos".

Muito antes de sua temporada a bordo da estação espacial internacional, Pettit já era um observador ávido das auroras. "Eu já havia fotografo a Aurora Boreal, no Alasca e no Canadá", diz ele. Algumas das vistas que ele obteve lá eram magníficas, mas "da estação espacial, tenho visão ainda melhor".

O vento solar, por meio de um conjunto de complexas e fascinantes interações com o campo magnético terrestre, é a fonte definitiva de energia que empurra essas partículas na direção do nosso planeta. Quando elas atingem o topo da atmosfera, excitam átomos e moléculas e fazem com que o ar cintile. O brilho vermelho e o verde vêm do oxigênio atômico, e o azul do nitrogênio.

Essas luzes coloridas cuja altitude varia entre 80 e 500 quilômetros acima da superfície terrestre podem ser observadas com precisão da estação espacial internacional que, dada sua órbita a uma altitude de 400 quilômetros sobre o planeta, voa através dessas auroras com freqüência. Mas não há risco para os astronautas. Os elétrons e prótons que causam o fenômeno são milhares de vezes menos poderosos do que os raios cósmicos, potencialmente perigosos.

"[Em janeiro passado] voamos através de uma cortina de aurora que surgiu sobre o Canadá", relembra Pettit. A estação ficou cercada por uma neblina vermelha de brilho opaco. Logo abaixo dela havia rios de luzes verdes. "Era como se eu tivesse sido reduzido a alguma dimensão miniaturizada e inserido dentro de um tubo em um anúncio de neon. E o fenômeno estava acontecendo ao meu alcance, do outro lado da janela da estação. Eu tive vontade de estender a mão e tocar a aurora, mas evidentemente não pude".

"Mais tarde, vi que meu nariz deixara uma marca na janela", conta.

As auroras não são a única coisa a observar. "Ocasionalmente vejo meteoros, quando estou olhando para abaixo pela janela do laboratório Destiny", diz. Os meteoros se desintegram na atmosfera terrestre, abaixo da estação espacial, de modo que é preciso olhar para baixo para poder vê-los.

"Também se pode ver lixo espacial em órbita nas proximidades. Às vezes ele brilha quando alguma superfície irregular apanha um raio de luz ao girar. E há também os satélites. Um raio de sol refletido por um satélite Iridium perto da constelação Cruzeiro do Sul realmente me fez sorrir".

Pettit recentemente tirou algumas fotos maravilhosas de campos de estrelas no hemisfério sul: a Grande Nuvem de Magalhães (uma galáxia próxima que orbita nossa galáxia, a Via Láctea), a Nebulosa do Saco de Carvão (uma nuvem interestelar intensamente negra) e o Cruzeiro do Sul.

"Essas imagens mostram o quanto a estação espacial é maravilhosamente estável", diz Pettit. "Quando a câmera é montada na janela, a estação especial inteira serve de tripé. Qualquer movimento causaria distorções nas imagens das estrelas". Mas o giroscópio de controle de movimento da estação mantém sua posição com precisão sólida como uma rocha. "Não acredito que a estação espacial tenha sido projetada com fins astronômicos em mente", acrescenta Pettit, "mas ela funciona muito bem como plataforma de astrofotografia".

Uma das coisas curiosas sobre observar o céu em órbita é a aparência das estrelas. "Elas não piscam", diz Pettit. As piscadas das estrelas são causadas por irregularidades na atmosfera terrestre que causam refração da luz estelar em direções inesperadas. Mas em órbita não existe atmosfera. A luz das estrelas é notavelmente firme e penetrante. Por outro lado, as luzes das cidades piscam, vistas do espaço. "Da estação espacial, podemos ver as luzes das cidades, à noite, no planeta lá embaixo", explica Pettit. "Brilhando para cima, através da atmosfera, elas piscam como estrelas. São bonitas".

Quando Pettit tentou fotografar as luzes das cidades, compreendeu rapidamente que isso não era tão fácil quanto fotografar as estrelas. A estação, que voa a 28.100 km/h, faz um círculo em torno da Terra em cerca de 90 minutos. As luzes na superfície terrestre passam pela janela rápido demais para uma exposição longa. As estrelas, por outro lado, parecem estar quase imóveis porque a distância que as separa de nós é imensa. É como dirigir por uma estrada em alta velocidade. As montanhas e árvores distantes não parecem estar se mexendo muito, mas o acostamento passa pelos olhos como se fosse um borrão.

"Eu precisava de alguma coisa que me ajudasse a acompanhar as luzes da cidade, cancelando o movimento orbital da estação", diz Pettit.

O astronauta é bem conhecido entre os colegas como sujeito habilidoso na criação de engenhocas, e não demorou muito para que ele desenvolvesse uma solução para seu problema fotográfico.

"Montei um sistema improvisado de acompanhamento", diz Pettit. "Ele se baseia no mecanismo em que a câmera Imax fica montada na janela do laboratório Destiny. Descobri um jeito de montar um mecanismo de parafuso e esteira (obtidos de um foguete Progress) e de acioná-lo com uma furadeira Makita". A furadeira faz com que o parafuso gire na velocidade devida, movendo a câmera no ritmo do movimento da estação. "Todas essas modificações podem ser acrescentadas à montagem da Imax e não alteram de maneira nenhuma a sua função original", diz Pettit.

"Eu compenso o movimento da estação manualmente, observando pela tela de ajuste da câmera e operando a furadeira na velocidade desejada ao mesmo tempo. Depois de algum tempo de prática, você aprende a acompanhar os movimentos", afirma.

Com o sistema, ele fotografou cidades pequenas e grandes de todo o mundo. "Com o movimento de câmera, pode-se distinguir quarteirões individuais de uma cidade, sem borrões". Algumas cidades são bem organizadas, como tabuleiros de damas. Outras são mais... orgânicas. Londres, por exemplo, se assemelha a uma brilhante teia de aranha espalhada pela paisagem. "Bonita mesmo", diz Pettit.

No entanto, em termos de pura beleza, "as auroras continuam a ser minhas favoritas", diz ele. "Não canso de observá-las".

Por Tony Phillips, da Nasa






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