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Informática
Quarta - 27 de Agosto de 2003 às 10:44

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Por Lana Cristina, da ABr

O americano Richard Stallman já esteve várias vezes no Brasil para defender aquilo que ele mesmo considera sua religião, o software livre. Na última delas, semana passada, ministrou palestra em Brasília, em evento que fez parte da programação da Semana do Software Livre no Legislativo, promovida pelo Senado e a Câmara. No meio de sua exposição, vestiu a bata estrategicamente trazida em sua mochila e pôs na cabeça um disco de computador em forma de auréola: “Sou Santus Ignusius, da Igreja de E-Max. Eu abençôo o seu computador se você usa apenas o software livre”.

Parece brincadeira, mas, quando se trata de defender os programas abertos, Stallman beira a filosofia. “Não é por acaso que as maiores religiões da humanidade dizem há séculos que se deve ajudar o próximo. Não podemos tolerar instituições sociais que promovam o contrário”, afirmou, em referência às restrições feitas pelas empresas fabricantes de software proprietário. Em seu discurso, o programador também opinou sobre comércio internacional: “O Brasil deve rejeitar a Alca. Não há nada mais perigoso hoje. É a abolição da democracia”.

Educado em um dos maiores centros de excelência na tecnologia de ponta em todo o mundo, o Laboratório de Inteligência Artificial do MIT, Massachussets Institute of Technology, Stallman negou-se a trabalhar para as grandes empresas de software proprietário e se tornou um dos criadores da Free Software Foundation, em 1986. A ong foi a base para o desenvolvimento do GNU, o sistema operacional ao qual se adicionou o kernel (uma das partes desse software que é a base para a operação de qualquer computador) conhecido como Linux, criado em 1992, pelo finlandês Linus Torvalds. A dupla GNU/Linux, que pode ser obtida gratuitamente pela Internet, tornou-se nos últimos anos a principal ameaça ao domínio absoluto do Windows, da Microsoft, sistema operacional empregado em 97% dos computadores pessoais de todo o mundo.

A entrevista seguinte foi concedida em Brasília na última semana. Nos próximos dias ele também passa por São Paulo.

Agência Brasil - Qual o principal ponto da discussão sobre o software livre hoje?
Richard Stallman - O uso do software livre é um exemplo de como a globalização pode ser benéfica, porque pessoas de diferentes países podem trabalhar juntas desenvolvendo programas livres. É a globalização da cooperação e do conhecimento. Infelizmente, quando se pensa em globalização, fala-se em globalização do poder econômico, e isso é ruim. A Alca, por exemplo, é um acordo de mercado ruim porque chega até a propor que as empresas possam processar um governo quando este usa uma lei que reduz seus ganhos. Se um governo, por exemplo, quiser preservar a floresta e alguma empresa quiser cortar as árvores, essa empresa poderá processar o governo e obrigá-lo a pagar por todas as árvores que ela deixou de cortar. É ultrajante. O governo norte-americano, que apóia isso, é uma marionete na mão dos empresários. Contra esse tipo de globalização nós temos de lutar. A cooperação global é algo bom e o movimento do software livre promove isso.

ABr - Como o software livre pode colaborar na promoção da inclusão digital ?
Richard Stallman - Imagine-se na cozinha. Você recebeu uma receita e resolveu mudá-la. Acrescentou ou retirou um ingrediente. Você fez uma cópia dessa nova receita e a forneceu a seus amigos. Por isso, quem fez a receita original chama você de 'pirata' e tenta lhe colocar na cadeia. Isso seria um absurdo. Felizmente, no caso das receitas de cozinha isso não acontece, mas é exatamente o que vemos hoje no mundo do software proprietário. Nos anos 70, estávamos acostumados a estudar e intercambiar programas justamente como todos fazem com receitas. Depois quiseram nos proibir de fazê-lo. Espero que percebam onde reside o ultraje. Software livre em países pobres significa que cópias podem ser distribuídas sem ninguém ter que pagar por isso. Pessoas pobres não têm que arcar com esse custo. Isso não resolve todos os problemas do mundo. Afinal, o computador continuará tendo um custo, conexões de Internet também. Acabar com o problema do software proprietário não dará a todos acesso a computadores da noite para o dia. Mas ajudará para que isso ocorra.

ABr - Empresas de software proprietário alegam que o software livre pode sair mais caro do que o software proprietário.
Richard Stallman - Com certeza estão enganados, e os usuários vão comprovar isso. Mas vou dizer por quê. Quanto mais o número de usuários de software livre aumenta, mais há pessoas com capacidade de criá-lo, de consertá-lo, se for o caso, de operá-lo e instalá-lo. Então, é cada vez mais fácil encontrar pessoas para fazer esse trabalho para você, se você tem uma empresa. Você não terá dificuldade de encontrar uma equipe capacitada na sua própria cidade. Haverá cada vez mais um mercado livre. Além disso, é bom lembrar que o dinheiro obtido com o pagamento da licença de uso de um software proprietário vai para uma empresa em particular. E a maioria dessas companhias é estrangeira, muito poucas ou quase nenhuma é brasileira. Mas, sou obrigado a dizer que questões econômicas são secundárias. A liberdade é muito mais importante.

ABr - Mas é o argumento que as empresas usam, não é mesmo?
Richard Stallman - O que você queria? São uns burocratas. O objetivo é colocar o argumento de tal maneira que você não perceba essa falha, a fraqueza do argumento. Essa alegação de que o software livre é mais caro é uma bobagem e vem justamente de empresas ligadas à Microsoft. Ocasionalmente, o software livre pode ser mais caro, dependendo do que o usuário quer fazer dele ou das pessoas que o adquirem. É um risco. De qualquer forma, as pessoas deveriam estar atentas para o fato de que há várias pessoas usando cópias não-autorizadas de software no Brasil, e a Microsoft e outras empresas do ramo estão trabalhando para que essas cópias não possam rodar. É só uma questão de tempo descobrirem que as pessoas estão usando esses programas e, de repente, elas vão ter que pagar as licenças. O problema é que a maioria não pode arcar com esse custo. Mudar para o software livre elimina esse problema, e o mais importante é que adotá-lo é o caminho de substituir dependência por desenvolvimento.

ABr - Como vê o envolvimento do setor público brasileiro nessa discussão?
Richard Stallman - Excelente. Isso mostra que há políticos que começam a reconhecer a importância do uso do software livre. É interessante o que ocorreu no Rio Grande do Sul. O Partido dos Trabalhadores chegou ao poder no estado e começou a implantar software livre em todas as escolas pelo estado afora. Então, o PT perdeu a eleição, mas o partido vencedor continuou com essa política. O software livre começou a ganhar apoio de vários partidos. Eu havia começado a dizer que o uso de software livre é necessário para o desenvolvimento. Usar software proprietário é não desenvolver-se. Isso não é óbvio. Afinal, o número de usuários de computador é cada vez maior, e as pessoas poderiam concluir que isso é desenvolvimento. Mas não é um desenvolvimento real porque gera dependência. Vocês estão usando máquinas que não podem manter. Imagine se o Brasil estivesse importando carros dos Estados Unidos e que fosse impossível para os técnicos brasileiros entender a mecânica desse carro. Eles não poderiam consertá-lo quando quebrasse. Imagine que vocês tivessem que mandar esse carro para os EUA para repará-lo. A conclusão não poderia ser outra. Isso não é desenvolvimento, é colonização.

ABr - Como você compararia a discussão sobre o uso de software livre que há no Brasil atualmente com o que há em outros países?
Richard Stallman - Não acredito que haja outro país do mundo onde a discussão esteja tão avançada quanto no Brasil, principalmente no nível político. Não conheço o número de usuários de software livre no Brasil, mas o fato é que vocês têm um debate e uma preocupação política sobre o tema do ponto de vista social que não acontece em nenhum outro país. Talvez a Índia seja o segundo nesse ranking.

ABr - Por causa do desenvolvimento da indústria indiana de software?
Richard Stallman - Não acho que seja por isso. É um erro procurar explicações econômicas para tudo. A razão para que a Índia também levante esse tipo de discussão é que lá eles ainda se lembram de Gandhi. Há uma semelhança entre o movimento do software livre e o pensamento de Gandhi. Ele disse aos indianos que parassem de comprar tecidos ingleses, e as pessoas começaram a confeccionar seu próprio tecido. Isso era pela independência do país. O software livre pode ser visto como um movimento para que passemos a confeccionar nosso próprio tecido.

ABr - O software livre é um bom negócio para um país?
Richard Stallman - Não se trata de nacionalismo. O mundo inteiro ficará melhor com o uso do software livre. Em cada país, há pessoas sendo colonizadas por empresas norte-americanas, mas isso não significa que todos os norte-americanos estão sendo beneficiados com isso. Poucos se beneficiam disso. O resto de nós somos colonizados também. Não vou usar o sentimento nacionalista das pessoas para fazer com que sintam raiva do Bush, por causa de suas mentiras, guerras etc.

ABr - O que você acha da experiência brasileira de instalar centros de informática em áreas pobres, como os telecentros, em São Paulo, onde as pessoas usam o software livre?
Richard Stallman - Estou muito animado com esse tipo de experiência, porque prova que o sistema é fácil de usar. As pessoas dessas comunidades pobres nunca tinham tido um computador antes. Elas vão aos telecentros sem experiência nenhuma e não têm dificuldades em usar o sistema. Isso prova que nosso sistema é bom o suficiente.

ABr - Por que você critica o uso do termo “pirataria” para o uso não licenciado de software proprietário?
Richard Stallman - Pirataria originalmente era atacar navios. Era isso que os piratas faziam, eles atacavam os navios, matavam a tripulação e roubavam a carga. E isso era terrível. No entanto, dividir cópias de programas ou de música é algo bom. Você não pode encontrar nada mais diferente de pirataria do que isso. Quando afirmam que, se você partilha algo com seu vizinho, é um pirata, o que realmente estão dizendo é que ajudar seu próximo é moralmente tão condenável quanto atacar um navio. E não é, porque atacar um navio é ruim, e ajudar o próximo é bom. Eu rejeito esse termo. Nenhuma sociedade pode aceitar a idéia de que dividir com o próximo é algo ruim.

ABr - As empresas argumentam que perdem dinheiro com o uso de cópias não autorizadas.
Richard Stallman - E daí? Eles tentam nos dividir e nos fazer menos cooperativos. Eu acho que eles merecem perder todo o dinheiro, sair dos negócios ou encontrar um negócio mais ético. Nós não precisamos dessas companhias que produzem programas fechados, porque, agora, temos um monte de programas desenvolvidos. Há 20 anos, as pessoas não acreditavam que nós, da comunidade do software livre, podíamos abastecer o mundo com programas abertos. Naquela época, eu não podia provar que eles estavam errados. Agora, eu posso, porque já há no mundo milhões de pessoas que usam o software livre. Nós já desenvolvemos milhares de programas e o fazemos cada vez mais, à medida que mais pessoas se envolvem nessa atividade. Temos hoje aproximadamente 1 milhão de voluntários desenvolvendo software livre no mundo. É um movimento essencialmente social, de cooperação.

ABr - Em 1986, você criou a Fundação do Software Livre, que recebe doações de voluntários para desenvolver projetos em defesa do sistema aberto. Que ações vocês desenvolvem atualmente?
Richard Stallman - Um dos nossos projetos atuais é o diretório do software livre, que pretende ser uma lista de todo software livre produzido no mundo. Não está completa, porque há milhares de pacotes de software livre ainda de fora. Há 23 mil listados e acreditamos que há mais que isso. Nosso pessoal consegue listar uns mil por ano. Agora, temos um voluntário brasileiro que está nos ajudando a aumentar a lista semanalmente (ele se refere ao programador Cristiano Junqueira, recentemente selecionado para a tarefa). Outro projeto importante é o reforço do conceito de copyleft - 'esquerdo autoral'. É literalmente o contrário de 'direito autoral'. Funciona assim: se eu ofereço a você um programa, você normalmente teria que pedir minha permissão para modificá-lo e redistribuí-lo. Então, eu lhe dou essa permissão, mas com a condição de que as versões que você faça devem também ser livres.

ABr - A escola seria um bom meio para a disseminação do software livre, não?
Richard Stallman - Esse ponto é essencial: queremos uma sociedade acostumada a lutar por sua liberdade. Dar a uma criança um programa fechado é como dar a ela um cigarro na infância. E é isso o que a Microsoft quer fazer, eles querem torná-las viciadas ainda crianças. Veja que o software livre permite a educação. Muitos adolescentes gostariam de saber como um software funciona. Dar a eles um software fechado é como dizer "você não tem permissão para aprender, tudo aqui é segredo, você será colocado num quarto escuro". O software livre diz: "você é bem-vindo a aprender", e não apenas olhando o programa, mas modificando-o. Ao fazer isso, a escola dá ao adolescente a oportunidade de ser um programador.


Colaborou Spensy Pimentel

AGência Brasil







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