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Tecnologia
Segunda - 27 de Outubro de 2003 às 08:03

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Noite de sábado. Dois homens avançam em meio aos freqüentadores de uma lanchonete local, se sentam e começam a planejar aquele que esperam que algum dia será o veículo preferido do Exército americano.

Os parceiros, Warren Williams e Bill Zimmerly, chamam a si mesmos de "Equipe Fantasma". De dia, Williams trabalha calibrando instrumentos elétricos; à noite, fins de semana e feriados, ele cria robôs para as competições BattleBots, nas quais as máquinas lutam umas contra as outras até a destruição.

Zimmerly é um programador e administrador de rede semi-aposentado que gosta de escrever software; ele tem uma paixão particular pela linguagem de programação Forth. Williams, falador e enérgico, é de muitas formas o oposto de seu amigo tecnófilo reservado, mas os dois compartilham uma meta comum. Eles estão tentando criar um veículo robótico para o Pentágono, capaz de dirigir sozinho por centenas de quilômetros em terreno acidentado.

Apesar de nenhuma grande empresa contratada pelas forças armadas ter aceito o desafio e algumas pessoas dizerem que a tarefa é impossível, o Departamento de Defesa apostou US$ 1 milhão que a Equipe Fantasma, ou uma das dezenas de outras equipes como ela, terá a criatividade e a imaginação para conseguir o feito.

Para este fim, equipes de universidades e pequenas empresas, assim como hobbistas, competirão em março do ano que vem no "Grande Desafio", uma disputa patrocinada pela Agência de Projetos de Pesquisa Avançada da Defesa, ou Darpa, um braço do Departamento de Defesa. Os veículos dos participantes disputarão uma corrida pelo Deserto Mojave até Las Vegas em busca de um prêmio de sete dígitos.

O veículo vencedor -se houver um- será o primeiro a cruzar a linha de chegada após atravessar cerca de 320 quilômetros de deserto em menos de 10 horas sem um motorista ou controle remoto.

Teoricamente, uma cavalaria de robôs teria o potencial de salvar a vida de soldados travando batalhas, realizando reconhecimento e resgatando feridos. Mas não apareceu uma tecnologia que permita que uma máquina guie a si mesma em uma velocidade decente por um território cheio de obstáculos. Ao longo dos anos, a Darpa tem desembolsado milhões de dólares junto a empresas contratadas pelas forças armadas para projetos de veículos robóticos terrestres, mas obteve apenas um retorno modesto de seu investimento.

Todavia, um mandado do Congresso exige que um terço dos veículos de combate terrestres sejam operados sem assistência até 2015. A Darpa considera o Grande Desafio como a forma mais rápida de chegar aos novos robôs.

Todas as equipes enfrentam os mesmos obstáculos: seus veículos devem ver, desviar, acelerar, frear e navegar sem assistência externa. As máquinas receberão orientação externa apenas de uma série de coordenadas do Sistema de Posicionamento Global (GPS), que serão reveladas pela Darpa duas horas antes da corrida em 13 de março. Cada equipe então entrará com os dados no seu veículo e então o entregará para a Darpa.

Os veículos iniciarão com cerca de 20 metros de distância, cada um governado por um sistema de liga-desliga de emergência. Eles terão que se orientar de um ponto GPS a outro, passando por cima ou contornando valas, água, rochas, arame farpado e outros veículos. A única informação sobre o percurso que a Darpa forneceu é que os obstáculos na rota podem ser superados ou desviados por uma caminhão comercial com tração 4 por 4.

Muitos dos participantes concordaram que a corrida apresenta dois problemas principais. O primeiro, os robôs não são adequados para reconhecimento de "terreno negativo" como valas e penhascos. Para evitar o fim do robô no fundo de um desfiladeiro, muitas equipes estão carregando nos computadores de bordo mapas detalhados -freqüentemente contando com imagens por satélite- da área entre Los Angeles e Las Vegas. Elas também estão equipando as máquinas com radar, radar laser e uma série de outros sensores. O ideal seria que os instrumentos de detecção fossem capazes de distinguir uma rocha intransponível de uma moita insignificante, e uma vala rasa da destruição certa.

A segunda área principal de preocupação está nas restrições impostas pela Darpa, que postou suas regras no endereço www.darpa.mil/grandchallenge. Em certos pontos, os robôs serão obrigados a passar por corredores de 3 metros a uma velocidade específica. As máquinas terão que correr a uma média geral de 32 quilômetros por hora, evitando casas e outros prédios.

"Passar pelos corredores de 3 metros será a parte mais difícil", disse Williams. "Você só pode planejar até certo ponto, depois vira a teoria do caos. Nós vamos mapear o percurso em até 1 metro quadrado, checar toda rota concebível e então torcer para que tudo corra bem."

Os dois parceiros esperam que a imaginação exigida pela sua abordagem de baixo orçamento os ajude a superar alguns dos obstáculos. Usando equipamento doado pela Kawasaki Motors, eles decidiram construir um veículo artesanal para todos os terrenos com um domo feito de material à prova de balas, que poderá se abrir como pétalas de flor caso o robô role. A máquina poderá então se endireitar e retomar o trajeto. Os parceiros projetaram uma bateria eficiente para alimentar o robô.

Sua abordagem de US$ 50 mil contrasta em muito da adotada pela equipe da Universidade Carnegie Mellon, considerada uma das favoritas para vencer.

A equipe de Carnegie Mellon, conhecida como Equipe Red, conta com milhões de dólares e uma longa lista de patrocinadores corporativos à sua disposição. Mais de 30 membros do corpo docente e estudantes se juntaram para adaptar um jipe Hummer com a mais recente tecnologia autônoma. O prêmio de US$ 1 milhão não interessa à Equipe Red; a reputação da escola como grande centro de robótica está em jogo.

William Whittaker, um professor do Instituto de Robótica de Carnegie Mellon, é um pioneiro na construção de robôs não tripulados por seres humanos. Entre seus trabalhos anteriores, alguns para a Darpa, estão a construção de robôs para investigação de locais tóxicos como o reator nuclear de Three Mile Island. Ele está no momento construindo sistemas para exploração planetária.

Algumas das equipes menores argumentam que a experiência e o financiamento de Carnegie Mellon contrariam o espírito inovador do Grande Desafio. Mas Carnegie Mellon esboçou um dos planos mais claros para completar a corrida, enquanto discutia estratégias que outras equipes ainda terão que sondar.

"Você precisa avaliar sua situação na corrida e estabelecer determinações estratégicas", disse Whittaker, cujo apelido, Red, inspirou o nome da equipe. "Se você não está em primeiro, então você precisa decidir quando é melhor seguir outros veículos e quando você seguirá seu próprio caminho."

Carnegie Mellon realizou vários testes e está usando uma série de supercomputadores de bordo para a realização de cálculos táticos.

A equipe do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) está abordando o desafio em uma escala menor, com um orçamento de US$ 400 mil e um Chevrolet Tahoe 1996 preparado para a corrida. A Equipe Caltech alistou ajuda de voluntários e financiamento da Northrop Grumman, que já venceu licitações da Defesa no passado para trabalhos com robótica.

"Os estudantes do Caltech não temem tentar coisas novas, o que em uma área como esta é algo a mais", disse Alex Fax, que faz parte da equipe técnica da divisão de sistemas de navegação da Northrop Grumman. "Nós temos que projetar coisas que possam ser fabricadas e eventualmente lucrativas. Os veículos do Grande Desafio são projetados para vencer uma corrida, de forma que há uma motivação diferente."

A Darpa, conhecida por ser uma incubadora de novas tecnologias, incluindo a Internet, está contando com o formato de competição para explorar tal motivação. Ao acenar com um prêmio de US$ 1 milhão (e o potencial de se gabar dos direitos), o governo conseguiu obter um alto investimento por parte de mecânicos, engenheiros e cientistas.

"A Darpa tem financiado empresas há algum tempo e agora deseja acelerar as coisas", disse David van Gogh, o gerente de projeto da Equipe Caltech. "Este projeto permite que as pessoas assumam riscos e explora a natureza humana."

Apesar do zelo dos competidores, o consenso parece ser que ninguém vencerá a corrida neste ano. "Eu não quero aumentar demais a esperança de vocês", disse Anthony Levandowski, um estudante de doutorado da Universidade da Califórnia, em Berkeley, e líder da equipe Infantaria Robótica, para os membros desta. "Há uma grande probabilidade de não irmos muito longe."

Cada equipe deve submeter um relatório técnico neste mês que determinará se está apta a participar. Até o momento apenas um punhado de equipes passou por este teste, mas outras estão ocupadas revisando suas propostas para atender às exigências da Darpa de segurança e uso viável.

As equipes, de locais tão distantes quanto o Alasca (Equipe Tartaruga do Ártico), de forma geral gostariam de dispor de mais tempo e dinheiro. Alguns participantes esperam iniciar uma empresa como resultado de seu trabalho, enquanto outros esperam que a vitória estabelecerá sua credibilidade como especialistas em robótica.

A Darpa planeja realizar a competição a cada 18 meses até que alguém vença, os recursos se esgotem ou todos desistam. A agência detém o direito de primeiro acesso à tecnologia desenvolvida pelas equipes, mas os grupos manterão a posse de sua propriedade intelectual.

Vencendo ou perdendo, as equipes acham que o evento vale a pena e é muito divertido. "Daqui seis meses todos nós estaremos celebrando em Las Vegas", disse Whittaker. "Eu não sei se haverá um vencedor, mas não haverá nenhum perdedor."


The New York Times




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