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Ciência
Segunda - 08 de Dezembro de 2003 às 10:30

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Há poucas coisas às quais a máxima "aquilo que vai, volta" se aplica mais aptamente do que às idades do gelo. Em um ritmo afinado com as oscilações regulares na órbita e rotação da Terra, 10 Eras de aumento das camadas de gelo e diminuição dos mares surgiram e acabaram ao longo do último milhão de anos.

Neste período, na verdade, o frio predominou tanto que os geofísicos consideram os períodos quentes como o atual, chamado de Holoceno, como excentricidades. De fato, o nome científico destes períodos - interglaciais - reflete a natureza excepcional de tais tempos.

A próxima idade do gelo quase certamente atingirá seu pico daqui cerca de 80 mil anos, mas continua o debate sobre quando ele começará, com a mais recente teoria sendo a que a influência humana sobre a atmosfera poderá atrasar substancialmente a transição.

Isto não é um mero exercício intelectual. As condições uniformes do Holoceno, que já duram 10 mil anos, permitiram o florescimento da agricultura, tecnologia, mobilidade e conseqüente crescimento populacional explosivo que tornou a espécie humana uma força global. Qualquer mudança climática substancial provavelmente apresentará enormes desafios, apesar de que provavelmente superáveis.

Há apenas 30 anos, após um período global frio prolongado, muitos cientistas do clima, incluindo alguns agora concentrados no aquecimento global, argumentaram que a Terra podia já estar vendo os estágios iniciais do próximo grande esfriamento.

Evidências de sedimentos marítimos e outras fontes estabeleceram consistentemente a duração do último período quente em cerca de 10 mil anos, e isto supostamente forneceu ao menos um indício da longevidade do atual período interglacial.

A noção de que o esfriamento era iminente foi contestada vários anos atrás. Alguns cientistas compilaram mais detalhes sobre o período quente anterior, que ocorreu há 130 mil anos, e concluíram que ele durou o dobro do que tinham previsto anteriormente - 20 mil anos em vez de 10 mil.

Outros propuseram que o período quente anterior que durou ainda mais -30 mil anos- era um modelo melhor para o Holoceno. Mas muitos especialistas ainda dizem estar convencidos de que o atual calor, atualmente sob influência única de ciclos orbitais, deverá se aproximar do fim "a qualquer milênio", como colocou Richard A. Muller, físico da Universidade da Califórnia em Berkeley.

Mas o planeta está sentindo uma nova influência, a das pessoas. Os humanos podem adiar o início da próxima idade do gelo em um milênio ou dois, ou até mais, dizem muitos especialistas em clima, à medida que os antigos depósitos de carvão, petróleo e outros combustíveis fósseis ricos em carbono são queimados, liberando bilhões de toneladas de dióxido de carbono e outros gases responsáveis pelo efeito estufa.

Tal cobertor de isolamento tem uma influência climática cada vez maior do que a leve flutuação na energia solar derivada de mudanças na orientação da Terra em relação ao Sol, disse James Hansen, diretor do Instituto Goddard para Estudos Espaciais da Nasa.

"Nós assumimos o controle dos mecanismos que determinam a mudança climática", disse ele.

Outros cientistas, apesar de concordarem com esta tese a curto prazo, disseram que eventualmente as propriedades amortecedoras da atmosfera, oceano e Terra restaurarão o equilíbrio, devolvendo grande parte do carbono liberado para depósitos de longo prazo e permitindo que o ritmo orbital predomine novamente.

"As mudanças orbitais estão em uma lenta dança conduzindo a um pico daqui 80 mil anos", disse Eric Barron, reitor da Faculdade de Ciências da Terra e Minerais da Universidade Estadual da Pensilvânia. "Eu não consigo imaginar que as influências humanas não terão se esgotado até aquela altura."

Pode ser que o aquecimento global provocado pelo ser humano, apesar de talvez um desastre na escala dos séculos, seja uma boa coisa a longo prazo caso consiga adiar um pouco a próxima idade do gelo.

Mas muitos climatologistas notam que a inter-relação complexa dos gases que provocam o efeito estufa, mudanças orbitais e outras influências sobre o clima continuam pouco entendidas. Na verdade, dizem alguns especialistas, há uma chance de que o aquecimento provocado pelo seres humanos possa interromper as correntes quentes oceânicas que mantêm as latitudes do Norte mais quentes do que seriam sem elas. O resultado seria um mergulho mais rápido na era glacial em vez de um atraso.






The New York Times




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