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Arqueologia
Quinta - 11 de Dezembro de 2003 às 09:31

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Em algum lugar na imaginação, em um cruzamento de uma Era Dourada idealizada e a descida da humanidade até a imperfeição manifesta, existia a ilha-civilização da Atlântida. Este reino de origem divina foi governado a partir de uma metrópole esplêndida no oceano distante. Seu império, descrito por um filósofo como "maior que a Líbia e a Ásia combinadas", desfrutava de grande poder e prosperidade.

Na época, movida pela ambição presunçosa, um tema comum na antiguidade e não desconhecido hoje, a Atlântida buscou conquistar as terras do Mediterrâneo. Mas em dias e noites terríveis de inundações e terremotos, a Atlântida foi engolida pelo mar, mergulhando em lenda.

A história perdura como um clássico no gênero dos mundos perdidos há muito tempo, com ruínas e tesouros que certamente estão em algum lugar para ser encontrados. Mas lendas geralmente são miragens, eternamente tremeluzindo fora de alcance, mas exercendo um poder de atração além da razão.

Às vezes a busca de lendas leva a conhecimentos imprevistos.

No século 12, a lenda de Preste João, um rico e poderoso monarca cristão em algum local na Ásia, atraiu caçadores intrépidos, eventualmente Marco Polo, que abriu os olhos do Ocidente para as maravilhas do Oriente. Quando ninguém encontrou Preste João na Ásia, a lenda não desapareceu; sua localização mudou para a África.

A cidade de ouro de El Dorado atraiu aventureiros tenazes, cuja busca frustrada mapeou grande parte da América do Sul.

As míticas Sete Cidades de Cibola, castelos no ar que provaram ser nada mais do que povos indígenas humildes, arrastaram europeus por torturantes quilômetros e anos que resultaram na desbravamento do atual Sudoeste dos Estados Unidos.

A história do continente perdido conduziu estudiosos respeitados dos clássicos aos seus textos para confirmação de que a Atlântida era mais do que fantasia. Arqueólogos, geólogos e mergulhadores reviraram as profundezas do oceano onde a ilha supostamente afundou milhares de anos atrás. Nenhum fragmento de evidência convincente que apoiasse a lenda foi encontrado.

Tal descoberta negativa poderia ser conclusiva o suficiente para a maioria das lendas passar de crença inabalável a artefatos literários de culturas pré-científicas vivendo em um mundo de horizontes limitados e mistérios ilimitados. Mas os crentes, se queixando de que os cientistas entenderam tudo errado, persistem na busca.

Gerações de aventureiros, escritores, místicos e excêntricos não tiveram dúvida da realidade da lenda. Suas "soluções" ocupam mais de 2 mil livros e incontáveis artigos. O continente perdido também inspirou obras de autores tão diversos quanto Francis Bacon e Arthur Conan Doyle, e Hollywood já contribuiu com uma série de filmes esquecíveis.

Richard Ellis, autor de "Imagining Atlantis", acha que a lenda é fantasia. "A Atlântida vive na mente das pessoas principalmente porque não é possível provar que não existiu", disse ele recentemente.

"Não é possível explorar cada centímetro do fundo do oceano, e assim a esperança permanece viva assim como a promessa de encontrar tesouros em palácios submersos."

A única fonte da história da Atlântida não é obscura. Em dois diálogos, o "Crítias" e o "Timeu", Platão descreveu no século 4 a.C. uma ilha império resplandecente no Oceano Atlântico, além das Colunas de Hércules (o Estreito de Gibraltar). "Esta dinastia, reunindo toda a sua força", escreveu Platão, "tentou escravizar, em um único golpe, seu país e o nosso".

Mesmo após a descrença nos deuses antigos ter minado a aceitação literal da lenda, surgiram mapas medievais salpicados de ilhas imaginárias no Atlântico, incluindo Antillia. Alguns especialistas suspeitam que isto preservou em forma deturpada o nome da Atlântida e a crença persistente de que seus restos ainda existem. Os mapas encorajaram navegadores em suas buscas, entre eles Colombo.

O século 20 foi duro para os sonhos da Atlântida. Mapeamento detalhado do solo marítimo e a nova teoria de placas tectônicas deixaram claro, segundo geofísicos, que massas de terra semelhantes à Atlântida nunca existiram no Atlântico.

Inabalados, os fiéis ardorosos foram procurar em outros lugares: na Escandinávia, nas Bahamas e no Mar Egeu. Imensos blocos de pedra submersos nas proximidades de Cuba foram proclamados recentemente possíveis ruínas do império perdido.

Uma hipótese mais plausível, pensam alguns estudiosos, coloca a Atlântida em Creta. A bem-sucedida civilização minóica desapareceu em meados do segundo milênio a.C., presumivelmente destruída por uma erupção vulcânica em Thera, atual Santorini.

Será que isto estava na mente de Platão? Ou ele se inspirou em um evento de sua própria época, o terremoto em 373 a.C. que lançou a cidade grega de Helike ao mar, como disseram escritores antigos.

As chamas desconhecidas da imaginação. Sejam noites estreladas ou seres extretarrestres, o mistério da vida em si ou a vida após a morte ou qualquer uma das fronteiras incertas entre a realidade e o anseio resoluto, é o desconhecido que enche a história de deuses e heróis, monstros das profundezas e ilhas quiméricas, paraísos perdidos e o El Dorado esquivo no final do arco-íris verde, sem contar os marcianos.

Alguns mistérios serão resolvidos, mas nunca todos. Quanto à Atlântida, outro filósofo grego deu o veredicto que ainda precisa ser contradito.

Como notou o classicista britânico J.V. Luce, Aristóteles considerava a Atlântida um ficção poética inventada por Platão como um alerta para o destino que recai sobre os arrogantes e decadentes. Platão situou a Atlântida além do mundo conhecido na época e a submergiu no fundo do oceano para preservar o poder do mistério.

"O homem que a sonhou a fez desaparecer", foi a solução de Aristóteles para o mistério da Atlântida.







The New York Times




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