Homenews - homenews.com.br
Ciência
Terça - 06 de Julho de 2004 às 12:12

    Imprimir


________________________________________________________________




David Wahlberg em Atlanta para o Cox News

Como transformar um macho promíscuo num macho leal com a sua parceira? Por meio da terapia genética - isso, se ele for um rato silvestre, claro. Depois de os cientistas do Centro Nacional de Pesquisas sobre Primatas Yerkes da Universidade Emory, terem ministrado um gene, que estimula um hormônio que favorece a integração social, dentro do cérebro de ratos silvestres não-selecionados, essas criaturas que se parecem com camundongos começaram a namorar as suas parceiras, ignorando as outras fêmeas.

Mas nem por isso as mulheres já podem se considerar como vitoriosas e trocarem os seus instintos de preservação monogâmicos por pílulas de Viagra para o seu homem. Pelo menos, ainda não.

Contudo, a mágica hormonal que foi praticada sobre os ratos silvestres poderia conduzir a uma melhor compreensão da dependência que causam as drogas e de desordens do comportamento tais como o autismo.

Quanto à fidelidade na relação conjugal, os seres humanos se caracterizam por serem criaturas mais complicadas, explicam os pesquisadores. Além disso, os valores familiares demonstrados pelos ratos silvestres têm mais a ver com o fato de dormirem sob o mesmo teto do que na mesma cama.

Para os especialistas dos círculos da biologia, a monogamia pode ser definida no plano social, mas não no plano sexual. Isso significa que um macho e uma fêmea se atraem, se relacionam, formam um ninho e criam os resultados juntos. Mas eles não deixam, às vezes, de "pular a cerca" quando a oportunidade se apresenta.

"A maioria das pessoas acredita que monogamia significa um relacionamento exclusivo com o seu parceiro, mas os animais não agem assim", explica Larry Young, um cientista especializado em neurologia do centro Yerkes e autor do estudo sobre ratos silvestres que foi publicado na edição desta quinta-feira (17/06) da revista "Nature".

"De qualquer forma, as pessoas nem mesmo são realmente fiéis, a não ser que exista um outro fator interferindo, tal como a religião, que as obriga a observarem uma monogamia rígida".

Os cientistas estudaram duas espécies de ratos silvestres que se comportam de maneira diferente na natureza: os ratos das planícies do Meio-Oeste, que tendem a ser monogâmicos, e os ratos dos prados, da Costa Leste, conhecidos pelo seu comportamento extremamente liberal.

Ambas as espécies, assim como ocorre com muitos mamíferos, emitem um hormônio quando fazem sexo chamado vasopressina. Mas as áreas de percepção do prazer no cérebro dos ratos das planícies são estimuladas de uma forma muito mais efetiva pela substância do que as dos ratos dos prados, explica Young. Isso conduz os ratos das planícies a associarem o prazer do sexo com o odor emitido por uma parceira específica, enquanto os ratos dos prados aprendem a gostar de sexo com toda e qualquer rata que esteja à mão, acreditam os pesquisadores.

Os cientistas utilizaram um vírus inofensivo para injetar um receptor do gene da vasopressina dentro dos centros de percepção do prazer no cérebro de vários ratos dos prados machos. Um mês mais tarde, eles colocaram esses animais peludos dentro de gaiolas junto com fêmeas e filmaram em vídeo os pares que eles formaram para verificar como eles se relacionavam.

No dia seguinte, os machos foram colocados dentro de gaiolas entre as suas parceiras e novas fêmeas. Os ratos dos prados machos se acariciaram e fizeram sexo com as suas parceiras por um período de tempo sete vezes mais longo do que com as novas e tentadoras desconhecidas - do mesmo jeito que os ratos das planícies costumam fazer normalmente.

Mas aquilo representava uma grande mudança em relação ao período no qual os ratos dos prados ainda não haviam tomado a injeção, quando eles se interessavam por toda e qualquer fêmea, sem distinção, pouco importando qual fosse a sua história sexual.

O estudo sugere que o amor - ou ao menos algum tipo de devoção - é estimulado por processos bioquímicos, diz Young. A chave da questão não é de saber se os animais possuem o gene da vasopressina, e sim se o gene é ativado no lugar certo.

"Isso mostra que um simples gene, numa única área do cérebro pode ter um impacto profundo sobre o comportamento social e sobre a capacidade de travar laços sociais", conclui Young.

Os humanos também produzem a vasopressina, mas Young explica que ainda não falta descobrir ao certo quais partes do cérebro das pessoas respondem ao seu estímulo. Além disso, o relacionamento social humano é muito mais complicado do que um gene ou um hormônio.

Mesmo assim, as futuras pesquisas sobre a vasopressina poderiam ajudar a explicar melhor a dependência das drogas e o autismo, os quais envolvem problemas com os circuitos bioquímicos do cérebro que têm vínculos com o relacionamento social, explica o cientista em neurologia.

E, por fim, algum dia, esta pesquisa também poderia ajudar a explicar por que nós somos fiéis ou "pulamos a cerca".




URL Fonte: https://homenews.com.br/noticia/2304/visualizar/