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Ciência
Sexta - 13 de Agosto de 2004 às 11:43

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Por Eloi S. Garcia (*)


Diariamente estamos vendo na mídia noticias e argumentos utilizados para tornar a clonagem humana para obtenção de células-tronco ilegal. Geralmente, são reflexões que mexem mais com o imaginário e emocional das pessoas do que com sua lógica e racional.

Ouvimos que a clonagem pode ameaçar a dignidade do clone, ou que os cientistas estão brincando de Deus e tentando criar um futuro desumanizado, gerando castas como em uma colméia, em que o genoma de inúmeros indivíduos será único e padronizado. Estes argumentos nos deixam a impressão que a clonagem terapêutica humana será condenada por todos ou considerada um crime contra a humanidade.

Sabemos que inúmeros avanços científicos relevantes, que hoje são vistos com a maior naturalidade, foram condenados pelos valores morais e religiosos, enraizados em nossa sociedade.

Como bons exemplos temos o caso de Galileu, da anestesia, das vacinas, dos transplantes de órgãos, da fertilização in vitro (FIV) e mais recentemente dos animais e plantas transgênicos, entre outros. A anestesia, as vacinas, os transplantes e a FIV são técnicas utilizadas normalmente no mundo de hoje.

O que podemos concluir desses fatos é que o ser humano possui reações imediatas que são emocionais e morais e não induzidos pela lógica e bom senso ou com uma visão do futuro. Quantas pessoas morreriam ou sofreriam hoje sem vacinas e anestesias?

Acaba de ser divulgado pela impressa mundial que cientistas Sul Coreanos deram um enorme salto em direção à clonagem de embrião humano para obtenção de células-tronco - células que podem substituir tecidos de indivíduos que estão doentes ou com algum tecido lesado. Os cientistas utilizaram 242 óvulos humanos para realizarem a clonagem. Destes 20 embriões foram gerados e usados para extração das células-tronco. Conseguiram produzir somente uma linhagem de células cultivadas.

Por esta técnica será possível no futuro, um coração com uma parte de tecido necrosado ter este tecido substituído por um novo músculo cardíaco, célula beta das ilhotas pancreáticas não funcionais serem substituídas por células normais produtoras de insulina ou células nervosas ativas serem usadas para tratamento da doença de Parkinson.

Mas ainda há um longo caminho pela frente para chegar ao processo terapêutico. Os cientistas produziram até agora somente células-tronco, as quais devem ser transformadas em células específicas de tecido cardíaco, pancreático ou nervoso, por exemplo. No entanto, está descoberta é um avanço. A clonagem terapêutica deixou de ser um sonho. Não se deve restringir a pesquisa de células-tronco no país. Isto pode significar desvantagens no domínio científico e tecnológico que hoje é sinônimo de poder.

A idéia da clonagem terapêutica é criar tecidos que são geneticamente semelhantes aos dos pacientes para não serem rejeitadas. Os cientistas Coreanos desenvolveram embriões que eram cópias genéticas das mulheres que doaram seus óvulos. Para torná-las úteis à terapia terão que ser transformadas em células tecido-específicas para serem inoculadas nos pacientes. Para evitar complicações colaterais, formação de teratomas, a população de células transformadas deve estar sem contaminação de outras células.

Alguns fazem objeções éticas no trabalho com células-tronco porque envolve destruição de embriões. Outros acreditam que é mais prático utilizar células-tronco de indivíduos adultos. Estas não são eticamente e moralmente questionáveis. Entretanto, outros dizem que células adultas não se desenvolvem com facilidade fora do organismo e não são tão versáteis, como acontece com as células embrionárias.

Homens e mulheres têm seus limites sociais. No caso da clonagem humana terapêutica, nós temos três alternativas de engajamento. Na primeira, podemos lutar contra o desenvolvimento científico e somar nossas forças às conservadoras que procuram deturpar toda nova tecnologia que poderá mudar o futuro do planeta. Na segunda, podemos ainda ficar sentados e passivamente ver o panorama do futuro que está vindo.

Alternativamente, podemos ativamente participar da criação de um futuro melhor onde o ser humano usará os avanços tecnológicos para evitar ou tratar de doenças e o envelhecimento, aumentar a capacidade de viverem e melhorar a qualidade de vida no planeta.


(*) Eloi S. Garcia é pesquisador e ex-presidente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).





ABr




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