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Informática
Segunda - 23 de Agosto de 2004 às 09:25

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O bebê de Jennifer já dormia e o marido estava no trabalho quando ela abriu o computador doméstico na cidade de Port Huron, no Estado de Michigan. Jennifer queria descobrir qual era o nome mesmo daquele site de viagens que ela havia consultado mais cedo naquele dia.

Por meio de alguns atalhos pela Web, nada de muito complicado, ela conseguiu localizar os sites que tinham sido visitados naquele computador. Ela se surpreendeu ao ver a lista com os últimos sites. Ficou pasma com o que descobriu: 30 sites e salas de bate-papo pornográficos. Mas essa descoberta também serviu para resolver um mistério, para fazer "cair uma ficha": a razão de seu casamento com o namoradinho da infância ser tão insatisfatório.

Jennifer, atualmente com 29 anos, nunca havia suspeitado que o marido era gay. Mas de repente esse fato pareceu ser uma conclusão inevitável.Ela se lembra que ficou um tanto perturbada e que depois agiu de forma um tanto mecânica.

No quarto escurecido, iluminado apenas pela tela do computador, ela friamente encarou a situação, abrindo cada um dos websites, anotando tudo minuciosamente para o enfrentamento que viria a seguir.

A simples quantidade de informações que ela levantou já era convincente, embora circunstancial. "Não havia evidencia concreta de que ele me traía; aquilo tudo poderia ser fruto de curiosidade ou algo assim", diz Jennifer.

Porém, mais tarde, quando conversaram, o marido dela confessou já ter tido uma série de relacionamentos curtos, de uma noite. Desde os 16 anos ele se encontrava com outros homens.

Jennifer tem dúvidas se o marido seria capaz de trazer a verdade à tona por vontade própria, ou se pelo menos se seria capaz de se abrir tão rapidamente. "Se não fosse pelo que eu descobri no computador, ainda poderia estar ali, no meu casamento infeliz". (O marido, que confirma o relato de Jennifer, pediu para que os sobrenomes deles não fossem revelados.)

Antigamente mulheres como Jennifer poderiam passar décadas num limbo de ignorância ou de negação, sem saber da vida dupla ou da verdadeira orientação sexual de seus maridos. Mas na era da Internet os tapa-olhos podem cair com um simples toque digital.

Profissionais da área de saúde mental e advogados que lidam com casamentos e divórcios dizem que muitos relacionamentos, tanto os heterossexuais como os homossexuais, estão desabando sob o peso das evidencias registradas nos computadores, num tempo em que esses registros eletrônicos estão constrangendo empresários, empregados e outras pessoas que se esquecem de que esse tipo de comunicação não pode ser negada facilmente.

Afinal, uma camisinha encontrada na bolsa da academia pode ser explicada de forma relativamente fácil, tipo "O cara do armário ao lado do meu deve ter deixado ela cair na minha bolsa".

Mas um e-mail que discute o uso da camisinha para se praticar o sexo seguro já é bem mais difícil de se justificar. Advogados e outros especialistas acreditam que isso significa ser o risco dos flagrantes conjugais agora maior que nunca, devido ao número crescente de cônjuges que vivem suas sexualidades clandestinas online.

"A era da privacidade acabou, e com ela acabou também a possibilidade de sustentar a negação de um relacionamento", segundo Sheenah Hankin, um psicoterapeuta de Nova York. "Qualquer um pode vasculhar a Internet e descobrir muitas coisas sobre seus cônjuges".

Conselheiros matrimoniais e terapeutas dizem que essa atitude de negar a vida clandestina, quando um dos cônjuges é gay enrustido, sempre foi mais fácil de ser sustentada, devido às próprias ambigüidades da orientação sexual de cada um. Muito freqüentemente, dizem esses especialistas, o parceiro gay tem atividades homossexuais antes do casamento, mas depois se mostra determinado a levar adiante o que a sociedade considera como sendo uma vida "normal".

E também muito freqüentemente, segundo esses especialistas, o marido e a mulher realmente se amam. Tanto que em alguns desses casamentos a separação nunca se consuma, porque marido e mulher resolvem redefinir seu relacionamento, passando a viver como amigos ou irmãos.

O caso do governador

Há alguns dias, o governador do estado de Nova Jersey, James E. McGreevey, e sua mulher Dina Matos McGreevey, apareceram diante do público da TV norte-americana para revelarem que ele é gay. Ainda não ficou claro há quanto tempo que a senhora McGreevey sabe que o marido, com quem está casada há quatro anos, é homossexual.

Mas uma reportagem, publicada essa semana no jornal "The Star-Ledger", da cidade de Newark, cita uma amiga dela, Lori Kennedy, afirmando que a mulher do governador só soube da verdade três dias antes do discurso em que ele renunciou ao cargo.

Nessa aparição pública, o indecifrável meio-sorriso da senhora McGreevey tocou em nervos expostos, entre pessoas que tiveram experiências parecidas. Muitas delas procuraram o web site de uma organização chamada Straight Spouse Network (Rede do Cônjuge Heterossexual), no endereço http://www.ssnetwk.org . Esse é um grupo de apoio eletrônico para pessoas que descobriram que seus parceiros são gays ou lésbicas.

Aumentou muito a popularidade do site desde a revelação do governador McGreevey. A criadora dessa rede de apoio, Amity Pierce Buxton, 75 anos, diz que num dia normal, antes da renúncia dele, cerca de 300 pessoas visitavam o site, que tem um fórum para discussões e vários chat rooms para assinantes. Nos cinco dias após a entrevista coletiva com McGreevey, a audiência diária do site passou para 1.187.

Amity Buxton, que durante 25 anos esteve casada com um homem gay, começou a organizar reuniões de grupos de apoio para esses cônjuges heterossexuais no final dos anos 80. Agora existem 65 desses grupos espalhados pelos Estados Unidos, além de outros cinco em outros países, sem contar com os fóruns eletrônicos e as salas de discussão online.

Buxton, que tem um doutorado em educação, escreveu uma espécie de bíblia da autoajuda nesse assunto,"The Other Side of the Closet: The Coming-Out Crisis for Straight Spouses and Families" (O Outro Lado do Armário: a Crise das Descobertas para os Cônjuges Heterossexuais e as Famílias), lançado pela editora John Wiley & Sons em 1991.

Esse livro, revisado em 1994, conta histórias de 18 casais. Em nenhum desses casamentos, segundo Buxton, nem no casamento dela, havia o fator "xeretagem no computador" como instrumento de investigação. Da mesma forma, nenhum dos homens gays ou das lésbicas pesquisadas havia explorado suas sexualidades na rede mundial de computadores, que então estava apenas começando, ou utilizado a web como ponto para encontros homossexuais.

"Os homens daqueles nossos tempos não agiam dessa forma", diz a fundadora da rede de apoio. "Eles iam aos bares ou às saunas, e depois sempre podiam dar desculpas sobre suas voltinhas fora de casa".

Agora a evidencia documentada pode ser acessada rapidamente, especialmente nos casamentos em que a mulher é hetero e o marido gay.

Essa segmentação de gêneros é evidente, tanto para os terapeutas que trataram desses casais como para os líderes dos grupos de apoio, sendo que essa divisão fica clara também na própria rede eletrônica de apoio.

De acordo com essas fontes, é o homem gay quem tipicamente passa horas no computador, interessado em pornografia online. As lésbicas raramente têm esse comportamento.

Mulheres casadas que admitem sua condição de lésbicas geralmente contam a verdade para seus maridos, muitas vezes de forma abrupta e dolorosa, mas sem subterfúgios. Logo depois elas resolvem terminar o casamento, de acordo com a pesquisa de Amity Buxton, que a colocou em contato com cerca de 1.000 homens e mulheres.

Homens casados que admitem sua condição de gays, de acordo com a mesma pesquisa, muitas vezes levam o casamento adiante, com mentirinhas para manter e união, e só admitem a verdade para as esposas quando são confrontados.

Flagrantes

As pistas digitais servem para abrir o olho das iludidas. Veja o exemplo de Carolyn, moradora na cidade de Chevy Chase, no estado de Maryland, que se divorciou do marido em maio, após 33 anos de casamento. (O nome completo dela não pode ser revelado aqui porque seu marido, que viajou para a Bolívia, não foi localizado).

Carolyn, aos 56 anos, diz que numa ocasião estava fumando um cigarro fora de casa quando, através da janela, percebeu que o marido estava vendo pornografia gay pela Internet. Ele argumentou que aquilo era apenas uma dessas inevitáveis janelinhas com publicidade em "pop-up".

Mas ela só pode dizer "ha- ha!" quando encontrou uma cópia impressa de uma mensagem por e-mail, onde o marido marcava um encontro com outro homem --uma prova óbvia o bastante até para quem tem tecnofobia ou não consegue usar computadores.

Mary, instrumentista de harpas em Nova Jersey, percebia que o marido acordava mais cedo que o normal para usar o computador, quanto todo o resto da casa dormia. Numa madrugada de insônia ela andava pela cozinha às 5h da manhã quando ouviu os sons das mensagens instantâneas chegando no computador, num quarto ao lado. O marido disse a ela que estava numa sala de disucssão de esportes, e fez um comentário que a deixou em estado de alerta.

Mas quando a mesma atitude se repetiu, ela registrou que agia com um comportamento de culpado. Ela se deu conta de como ele freqüentemente evitava que se ela se aproximasse do computador. Numa certa manhã, ela percebeu na tela dele um e-mail de outro homem gay casado com mulher, marcando um primeiro encontro. Antes que ela ouvisse os passos do marido na escada, se aproximando, ela ainda teve tempo de ler mais duas mensagens,de outros homens marcando encontros.

Na vez seguinte em que o marido alegou estar participando de uma sala de discussão sobre esportes, Mary contra-atacou dizendo "olha só o que eu já sei e veja como eu soube". Ele relutou, mas reconheceu o óbvio, sendo que ainda não se abriu com muitos parentes e amigos. (Vem daí o pedido dela, em defesa da privacidade, de que o sobrenome não seja revelado.)

Mary aproveitou a ocasião da confissão de McGreevey para contar aos filhos adolescentes que o pai deles era gay. "Acontece que eles já sabiam", diz Mary.

Às vezes são os próprios filhos adolescentes que descobrem a verdade. Carol Silverman, de Scarsdale, no "stado de Nova York, diz que, quando seu casamento de 27 anos desabava, há seis anos, foi a filha dela, então com 14 anos, quem descobriu a prova que faltava: num site de relacionamentos gay constava o perfil pessoal do pai dela, com riqueza de detalhes anatômicos. (Silverman aparece aqui com o nome de solteira, e diz que não sabe do paradeiro atual do marido.)

O pai e a filha dividiam o computador da casa. A garota já havia visto muitas das mensagens do pai, entre elas o anúncio "Homem gay casado procura por parceiro asiático", com direito a indiscretos detalhes físicos.

Algumas mulheres que não sabem lidar com computadores buscam instruções para poder investigar melhor. É por isso que apareceu recentemente uma mensagem no site da rede Straight Spouse Network.: "Como eu posso identificar pornografia, informações etc. no meu computador?", perguntou uma mulher, cujo apelido na tela era Pam.

Uma resposta detalhada veio rapidamente de "David", que dizia ser um homem hetero casado com uma lésbica. Ele a aconselhou a teclar "Ctrl-H" no navegador Microsoft Explorer para que apareça uma janelinha com os últimos sites visitados.

"Claro que algumas informações obviamente serão inofensivas", disse David. Mas, acrescentou, "se aparecerem endereços com nomes como www.gaynakedguys.com (gays nus) ou www.hotstuddating.com (para encontrar 'machões'), pode ter certeza do que acontece."

David teme que Pam possa ficar em melhor estado caso não abra os sites ou mensagens que descobriu. Ainda assim, ele disse a ela que alguns sites poderiam "lembrar" o nome de usuário do marido dela, exibindo o apelido eletrônico assim como a senha. Ela também poderia descobrir pistas pelo telefone celular dele, no histórico das chamadas feitas, recebidas ou não atendidas.

Outra curiosa, "Kathy", fez uma pergunta sobre softwares que neutralizam a ação de apagar os históricos do navegador na Internet. O conselheiro "Trini" sugeriu o Kidsafe da Webroot. "Acho incrivelmente suspeito que um histórico seja apagado na Web", escreveu uma tal de "JJ".

Com essas mensagens primárias, Pam, David, Trini, Kathy e JJ passaram a usar a Internet para encontrar uma comunidade de afins, da mesma que seus companheiros haviam feito. Essa ironia é percebida pelos que buscam consolo ou sugestões online.

Jennifer diz que encontrou novos amigos pela rede, gente capaz de entender por que ela demorou dois anos, além de uma tentativa frustrada de reconciliação, para conseguir encerrar o casamento. Há um ano, Jennifer finalmente pediu o divórcio. Os conselhos de seu pastor ajudaram.

Mas ela precisava de mais apoio. Uma busca pelo site de buscas Google fez com que ela encontrasse a rede Straight Spouse Network. Os homens e mulheres que "encontrei por lá salvaram minha sanidade", diz Jennifer.

E ela aproveitou para se aprofundar bastante na Internet. Após a longa entrevista telefônica para The new York Times, Jennifer mandou um arquivo por e-mail onde aparece uma lista completa do que há de melhor e de pior na Internet, com direito ao envio de uma cédula de votação eletrônica para ser preenchida.





The New York Times




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