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Informática
Sexta - 27 de Agosto de 2004 às 08:58

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A briga começou na escola, quando algumas garotas da oitava série roubaram um estojo de lápis cheio de maquiagem que pertencia a uma nova aluna, Amanda Marcuson, e ela as denunciou.

Mas não terminou lá. Assim que Amanda chegou em casa, as mensagens instantâneas começaram a aparecer na tela de seu computador. Ela era uma fofoqueira e mentirosa, elas diziam. Abalada, ela respondeu: "Vocês roubaram minhas coisas!" Ela era uma "vadia metida", foi a resposta instantânea na tela, seguida por uma série de xingamentos cada vez piores.

Naquela noite, a mãe de Amanda a arrancou da frente do computador para ir a um jogo de basquete com sua família. Mas a enxurrada de insultos eletrônicos não parou. Como muitas outras adolescentes, Amanda tem suas mensagens de Internet enviadas automaticamente para seu celular, e ao final do jogo ela já tinha recebido 50 - o limite da capacidade.

"Parece que as pessoas conseguem dizer coisas muito piores para alguém online do que seriam capazes de dizer pessoalmente", disse Amanda, 14 anos, de Birmingham, no Estado de Michigan, que foi transferida para a escola no ano passado. As garotas nunca disseram uma palavra para ela pessoalmente, disse ela.

O episódio reflete uma das muitas formas como a tecnologia que está lubrificando as vidas sociais dos adolescentes está ampliando a crueldade --no padrão deles.

Não mais confinados à escola ou aos horários diurnos, "cibervalentões" estão caçando suas presas em seus próprios quartos. Ferramentas como mensagens de e-mail e blogs permitem que o abuso seja menos óbvio para os adultos e mais humilhante publicamente, já que fofoca, gozações e fotos embaraçosas passam a circular entre um público maior com alguns poucos cliques.

A tecnologia, que permite a seus usuários provocar dor sem serem forçados a ver seus efeitos, também parece incitar um nível maior de maldade. Psicólogos dizem que a distância entre o valentão e a vítima na Internet está levando a grau de brutalidade sem precedente --e freqüentemente não-intencional-- especialmente quando combinada com o típica falta de controle dos impulsos e capacidade subdesenvolvida de empatia do adolescente.

"Nós sempre falamos sobre proteger as crianças na Internet de adultos e pessoas ruins", disse Parry Aftab, diretor executivo da WiredSafety.org, um grupo sem fins lucrativos que tem recebido um número cada vez maior de telefonemas de pais e diretores de escola preocupados com os abusos. "Nós esquecemos que às vezes precisamos proteger as crianças das crianças."

Para muitos adolescentes, a ofensa online se tornou parte da vida diária. Mas as escolas, que tendem a se concentrar em problemas que ocorrem em sua propriedade, e os pais, que tendem a presumir que os filhos entendem mais do que eles de computador, não têm dado a devida atenção. Apenas recentemente o problema se tornou evidente o bastante para até mesmo os adultos começarem a prestar atenção.

Como muitas orientadoras escolares, Susan Yuratovac, uma psicóloga da Hilltop Elementary School, em Beachwood, em Ohio, tem trabalhado há anos com uma ampla variedade de agressões adolescentes, incluindo abusos físicos e sexuais. Neste verão, ela disse, ela está trabalhando em um novo currículo para tratar do escárnio eletrônico.

"Eu tenho crianças que chegam perturbadas diariamente à escola devido a algo que aconteceu na Internet na noite anterior", disse Yuratovac. "'Eu estava na Internet na noite passada e alguém disse que eu era gorda', ou 'me perguntaram por que eu uso o mesmo par de jeans todo dia' ou 'Eles disseram que eu visto roupas de supermercado'".

Recentemente, Yuratovac interveio quando uma garota de 12 anos mostrou a ela uma troca de mensagens instantâneas na qual um menino da classe dela escreveu: "Meu irmão diz que você tem peitos legais." Os meninos fazem comentários sexuais bem mais explícitos online do que pessoalmente, dizem os conselheiros.

"Eu não acho que a garota tenha medo que o garoto vá abordá-la, mas eu acho que ela está embaraçada", disse Yuratovac. "Eles sabem que é maldoso, que é arriscado, que é sujo. Eu temo pelo que possa causar a eles internamente. É o tipo de coisa que você carrega consigo por muitos anos."

As novas armas no arsenal adolescente de crueldade social incluem roubar os apelidos online dos outros e enviar mensagens provocativas para amigos ou objetos de paixão, passar material privado para pessoas às quais nunca foi destinado e postar anonimamente comentários pejorativos sobre colegas de escola em diários de Internet chamados blogs.

"Todos odeiam você", dizia um comentário anônimo dirigido a uma garota que assinou seu nome em uma mensagem sobre provas, postada em um blog de autoria de alunos ginasiais da Maret School, em Washington, D.C.

"Ela falava sobre uma garota em particular que tinha problema de acne, a chamando de 'cara de espinha' e coisas do gênero, que eram realmente maldosas", disse uma aluna da Maret. "Isso mexeu comigo porque também tenho acne."

Uma das garotas que iniciou o blog disse que ela e suas amigas apagaram todas as mensagens postadas porque muitas pessoas --incluindo alguns pais-- começaram a reclamar.

"Eu não sei por que se importam tanto", disse a garota, que preferiu não se identificar. "Obviamente não é tão sério quanto parece se ninguém vem até você e diz na sua cara."

Rosalind Wiseman, cujo livro "Queen Bees and Wannabes" (Abelhas Rainhas e Imitadoras), serviu de base para o recente filme "Meninas Malvadas", disse que a ofensa online tem um apelo particular para as meninas, que se especializam em abuso emocional em vez de físico e se esforçam para evitar confronto direto. Mas os meninos também fazem a sua cota, freqüentemente usando métodos modernos para trair a confiança de garotas adolescentes.

Por exemplo, na primavera passada, quando uma garota da oitava série da Horace Mann School, no Bronx, enviou um vídeo digital dela se masturbando para um colega de classe pelo qual era apaixonada, o vídeo apareceu rapidamente em uma rede de compartilhamento de arquivos que os adolescentes usam para trocar música. Centenas de alunos de escolas privadas de Nova York viram o vídeo, no qual o rosto da garota estava claramente visível, e esteve disponível para um público mundial de milhões.

Os alunos se conectavam na escola enquanto a garota estava lá e assistiam, disse um aluno de outra escola, que não quis que seu nome fosse citado. Os diretores da Horace Mann não responderam à reportagem nesta semana, mas o jornal dos alunos noticiou na época que a escola agendou terapia fora do horário escolar para os alunos diretamente envolvidos e realizou reuniões para discutir questões de sexualidade e comunicação.

O incidente não é isolado. Em junho, um vídeo mostrando duas calouras da Scarsdale High School, em Nova York, tendo uma relação lésbica, aparentemente recebendo orientações de garotos no fundo, provocou uma investigação da promotoria de Westchester County quando um pai denunciou que estudantes estavam enviando o vídeo uns para os outros por e-mail.

Uma foto de uma garota de 15 anos nua de Wycoff, Nova Jersey, tirada com um celular câmera, ainda está circulando após ela a ter enviado por e-mail para seu namorado e este a ter repassado para seus amigos, disseram outros alunos.


Listas online classificando as garotas da escola como "gostosas", "feias" e "sem graça" são comuns. Uma que apareceu na Horace Greeley High School, em Chappaqua, Nova York, há poucos anos, listava nomes, telefones e o que supostamente seriam os feitos sexuais de dezenas de garotas.

Mas as garotas não são as únicas vítimas da fofoca alimentada pela Internet. Uma aluna da sétima série da Nightingale-Bamford School, em Manhattan, disse que assistiu recentemente a um vídeo online que um garoto fez de si mesmo cantando uma canção para a garota de quem gostava, que imediatamente o espalhou pela Internet. "Eu realmente senti pena do sujeito", disse ela.

Em grande parte, dizem os psicólogos, os adolescentes estão se sendo confundidos pela mesma característica da Internet que tem feito muitos adultos enviarem mensagens de e-mail das quais se arrependem posteriormente: a capacidade de apertar "enviar" e vê-las desaparecer as fazem parecer menos reais.

"Não é o mesmo que pegar uma foto picante de sua namorada e mostrá-la a todos na escola enquanto você está lá segurando a foto", disse Sherry Turkle, uma psicóloga do Instituto de Tecnologia de Massachusetts e autora de "Life on the Screen" (A Vida no Monitor). "Há algo na mídia que estimula a grosseria."

Mas um número crescente de adolescentes está aprendendo do modo difícil que palavras enviadas no ciberespaço podem ter conseqüências mais severas do que uma conversa ao telefone ou uma confidência sussurrada. Por mais efêmeras que possam parecer, as mensagens instantâneas formam um registro escrito freqüentemente empregado como arma poderosa de traição e tormento adolescente.

Uma garota do segundo colegial da Fieldston High School, no Bronx, por exemplo, concordou em não voltar neste ano letivo após ter feito um comentário racista, que ela escreveu em uma mensagem instantânea para uma amiga, sobre um garoto que a rejeitou no fim do ano letivo. A amiga repassou a mensagem para o garoto, e cópias foram impressas e distribuídas na escola no dia seguinte, disseram pessoas familiarizadas com a situação.

Os diretores da Fieldston High se recusaram a comentar, assim como a garota e seus pais, que pediram para que seu nome não fosse citado para protegê-la em sua nova escola. Mas vários pais criticaram a diretoria da escola por pressionar a saída da garota, em vez de usar o incidente como meio de ensinar uma lição sobre discurso racista --e talvez as armadilhas da mensagem instantânea.

"Quando você diz coisas pela Internet, parece que você escrevendo em seu diário", disse Sandra Pirie Carson, mãe de um ex-aluno da Fieldston e a advogada que se ofereceu para mediar a escola e a família da garota. "Se ela tivesse dito aquelas coisas ofensivas para a amiga dela ao telefone, eu acho que a amiga não teria telefonado para ele e repetido o que ela disse, e mesmo se o tivesse feito, eu duvido que teria o mesmo efeito."

Muitas escolas, mal equipadas para lidar com estas novas situações, estão realizando reuniões para lidar com elas e especialistas em abusos tradicionais estão lutando para desenvolver estratégias para preveni-las.

"É muito nebuloso; não está acontecendo no refeitório, não está acontecendo no ônibus escolar, mas pode se espalhar rapidamente", disse Mary Worthington, coordenadora de ensino primário da Network of Victim Assistance (rede de assistência à vítima), uma organização de terapia em Bucks County, Pensilvânia. "Ao longo do ano passado, quando estive nas escolas para realizar nosso programa regular, os orientadores diziam: 'Você pode falar sobre e-mails e mensagens instantâneas?'"

Para os pais de vários alunos da Gillispie School, em San Diego, tais estratégias tiveram que ser desenvolvidas às pressas, quando ameaças por meio de mensagens instantâneas entre os alunos de lá e de uma escola de um bairro vizinho se transformaram em uma forma mais clássica de agressão.

Cerca de 30 estudantes da Muirlands School apareceram certa tarde na Gillispie, alguns meses atrás, carregando skates sobre suas cabeças e chamando o apelido de um dos garotos com quem vinham conversando online. Kim Penney, mãe de um dos garotos da Gillispie, disse que desativou a Internet no computador do quarto de seu filho e insistiu que para que ele só realize conversas online onde ela possa acompanhá-las.

"Foi assustador ver a manifestação física deste leva e traz por mensagens instantâneas", disse Penney. "Eu nunca pensei que teria tamanhas conseqüências."




The New York Times




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