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Ciência
Quinta - 16 de Setembro de 2004 às 10:42

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Às vezes, alguns casos policiais e seus desdobramentos judiciários não podem ser plenamente compreendidos sem o recurso a conhecimentos médicos ou psiquiátricos. Assim, os recentes casos de Outreau ou do RER [trens de subúrbio de Paris], cada um à sua maneira, chamaram a atenção para uma patologia particular, tão difícil de compreender e ainda mais de tratar, que é a mitomania.

Esquematicamente, essa doença pode ser definida como uma forma de desequilíbrio psíquico caracterizado essencialmente por declarações mentirosas nas quais acreditam aqueles que as fazem. O acaso quer que a mitomania tenha sido identificada, descrita e assim denominada há apenas um século, por um médico francês, o professor Ernest Dupré, psiquiatra e médico-chefe da enfermaria da Prefeitura de Polícia de Paris.

Seus trabalhos provocaram uma notável transformação do discurso médico sobre a criança maltratada física ou sexualmente depois das leis de proteção à infância de 1889 e 1898.

"O surgimento em 1905 do conceito de mitomania infantil leva sobretudo a matizar o otimismo do discurso sobre a proteção à criança", resume o historiador Jean-Jacques Yvorel em sua apresentação no número 2 da revista "Le Temps de l'Histoire", dedicado à repressão da violência contra crianças.

"Dupré quer dar uma demonstração científica para justificar a reserva expressa pela medicina legal de sua época contra a confiabilidade da palavra da criança. Ele vai fundamentar sua demonstração em bases teóricas, às quais aderem na época tanto alienistas quanto pedagogos", explica por sua vez Denis Darya Vassigh na mesma revista.

A teoria de Dupré repousa em um postulado básico: a infância corresponde a um estado primitivo da vida, no qual a imaturidade fisiológica produz uma imaturidade mental, comparável a certo grau de debilidade. Em outros termos, na criança, a mentira é uma constante de natureza quase fisiológica. Segundo Dupré, todas as crianças mentem habitual e naturalmente. Essa característica só assume um caráter patológico em alguns casos.

"A mitomania pode ser considerada patológica quando leva a um encerramento na necessidade de repetição", explica por sua vez o professor Philippe Jeammet (Institut Mutualiste Montsouris, em Paris).

"De um lado, o mitômano sempre sabe no fundo que o que ele diz não é totalmente verdadeiro. Mas ele também sabe que isso deve ser verdadeiro para que lhe garanta um equilíbrio interior suficiente. Em determinado momento, o sujeito prefere acreditar em sua realidade mais que na realidade objetiva exterior. Ele tem necessidade de contar essa história para se sentir tranqüilizado e de acordo consigo mesmo."

Desse ponto de vista, podemos dizer que o discurso do mitômano é muito diferente daquele do mentiroso ou do fraudador, que têm finalidades práticas. Para estes, o objetivo não é a mentira, sendo esta apenas um meio para outros fins.

"Na mitomania, ao contrário, a mentira é uma finalidade em si", salienta o professor Jeammet. "Contam-se histórias ao mesmo tempo que se acredita nelas. É também uma forma de consolo. Esse distúrbio tem sua origem na supervalorização de suas crenças em função da angústia subjacente."

Diante desse distúrbio, existe o risco, notadamente quando há crianças envolvidas e a justiça é acionada, de tomar as declarações mitômanas em primeiro grau, como ocorreu no caso de Outreau. Ora, a criança inclinada à mitomania e que constata que sua mentira é entendida como verdade, estimam os psiquiatras infantis, tem um sentimento de prazer e de poder que pode facilmente incitá-la a recomeçar.

Para o professor Jeammet, os casos evidenciam comportamentos mitômanos que não têm nada de verdadeiramente novo, a não ser a divulgação pela mídia de que foram objeto, antes mesmo que se descobrisse que os fatos alegados não ocorreram.

"A maioria das mitomanias é bem construída e se alimenta de histórias verossímeis", ele explica. "Assim, é lógico que as pessoas próximas se deixem atrair para o jogo, pois não podemos de todo modo começar a suspeitar de que todos são mitômanos."

Nesses casos, tudo se passou como se a produção mitomaníaca tivesse-se cristalizado sobre os temas mais propícios a atrair a atenção da mídia, precipitando ao mesmo tempo a descoberta da realidade; uma descoberta que o mitômano vive sempre como especialmente martirizante.

A maioria dos psiquiatras estima hoje que o modelo psicanalítico (caracterizado pela atenção flutuante e a neutralidade bem-intencionada) não é de natureza a ajudar o mitômano, na medida em que jamais o coloca na situação de confronto com o real que ele nega.

Para alguns, constitui até mesmo uma contra-indicação, na medida em que a escuta leva a fortalecer a mitomania. Nesse contexto, a melhor resposta reside muitas vezes na implementação de um quadro de cuidados que associa o tratamento em meio psiquiátrico do problema subjacente a um acompanhamento psicoterápico.




Le Monde




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