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Ciência
Segunda - 20 de Setembro de 2004 às 10:19

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Uma linguagem de sinais criada durante os últimos 30 anos por crianças surdas na Nicarágua deu aos cientistas a oportunidade de investigar como as linguagens se desenvolvem.

A linguagem segue muitas regras básicas comuns a todas as línguas, apesar de as crianças não terem conhecimento dessas regras.

Isso indica que algumas características da linguagem não são determinadas pela cultura, mas surgem por conta de uma maneira inerente aos seres humanos de processar a linguagem.

A pesquisa, feita por cientistas da Universidade Columbia, em Nova York, foi publicada na revista Science.

Debate

O desenvolvimento da linguagem tem sido o foco de pesquisas científicas por muito tempo. Alguns acreditam que a forma como a linguagem é processada deve-se a aspectos próprios do cérebro humano, enquanto outros pensam que a linguagem é resultado apenas de aspectos culturais.

Eles não conseguiram chegar a nenhuma conclusão porque a maior parte das línguas existentes são de origem antiga, o que faz com que seja difícil descobrir como elas foram formadas.

É por isso que a linguagem de sinais desenvolvida pelas crianças da Nicarágua é tão incomum. Ela ofereceu a oportunidade para que os cientistas decubrissem como os seres humanos aprendem as diferentes formas de linguagem.

"Essa é a primeira vez que nós temos a oportunidade de observar a formação de uma língua porque as pessoas que a criaram ainda estão vivas", afirmou um dos autores da pesquisa, Ann Senghas.

'Separação'

Antes dos anos 70, a maior parte das pesssoas surdas na Nicarágua ficavam em casa e tinham pouco contato com outras pessoas, segundo Senghas.

Em 1981, quando uma escola vocacional foi aberta, as crianças passaram a se comunicar umas com as outras. Na verdade, ninguém as ensinou os gestos. Elas simplesmente passaram a desenvolvê-los para serem entendidas.

A princípio, os gestos eram bem simples, semelhantes aos gestos que uma pessoa que escuta faria se tivessem de descrever alguma coisa sem falar.

Mas, à medida que outras crianças aprenderam a linguagem, ela foi ficando mais sofisticada e se tornou a Linguagem Nicaragüense de Sinais, completa com todas as características presentes em quase todas as outras línguas, tanto faladas como escritas.

Uma das características adotadas pelas crianças é chamada de "separação". É um processo que se refere à quebra da informação em pequenas partes.

O gato e a bola

Senghas e os outros pesquisadores da equipe mostraram um desenho animado a pessoas surdas de várias idades, no qual um gato engole uma bola e desce rolando uma rua inclinada. Depois, os participantes tiveram de contar a história.

Os mais velhos, que inventaram os primeiros gestos pouco sofisticados da linguagem nicaragüense, contaram a história com gestos contínuos, como uma pessoa que escuta o faria.

Mas os mais jovens fizeram algo diferente. Eles fizeram sinais diferentes para o movimento (rolar) e para a direção (para baixo).

Os pesquisadores afirmam que isso representa uma evidência de que os seres humanos têm, naturalmente, uma forma de desenvolver a linguagem dessa forma, separando a informação total em pequenas partes.

Além disso, os adultos tendem a perder essa capacidade, sugerindo um elemento inato, inerente ao ser humano, nessa habilidade.

"Isso prova que parte do processo de criar uma língua é natural. Uma língua não é só convenção, como muitos pensam", afirma Senghas.

"É claro que nós não temos as formas gramaticais na nossa cabeça quando nascemos, mas algumas habilidades estão lá."




BBC, em Londres




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