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Informática
Quarta - 22 de Setembro de 2004 às 11:05

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A gigante do software, Microsoft, anunciou, nesta segunda-feira (20/09), que iria dar livre acesso ao código-fonte de sua gama de softwares de gerenciamento de escritórios Office para os governos de mais de sessenta países.

Com isso, a líder mundial dos softwares vai revelar para estes que são os seus clientes mais importantes, a alma de sua tecnologia, sobre a qual se baseia o seu quase monopólio (a parte de mercado do Office supera 80%) e a sua confortável rentabilidade (66% de margem de exploração neste segmento em 2003).

A iniciativa não é nenhuma novidade: ela se inscreve no quadro da operação batizada de Government Security Program (Programa de segurança para os governos, ou GSP), que foi lançada em janeiro de 2003. Até então, o 'mastodonte' da informática já havia aberto para mais de trinta países (entre os quais a China, a Rússia, a Espanha e o Reino-Unido) o acesso ao código-fonte do seu sistema operacional Windows. Este último faz funcionar nove entre dez computadores em todo o planeta, proporcionando, mais uma vez, uma margem de lucros excepcional, de 70% em 2003.

Contudo, a dimensão desta nova iniciativa que a Microsoft toma em relação aos governos para facilitar as suas operações com o Office precisa ser colocada no seu devido contexto: os clientes mais importantes poderão "consultar as linhas de códigos por meio de um acesso de segurança na Web", explica Bernard Ourghanlian, o diretor técnico da Microsoft França, mas eles não poderão copiá-los e menos ainda efetuar modificações nestes dados.

Mesmo assim, esta decisão não deixa de ser espetacular por parte deste grupo cuja vocação hegemônica é notória, e que vinha até então protegendo ciosamente os seus segredos de fabricação. Ela mostra até que ponto a Microsoft vem sentindo a pressão, que não pára de aumentar, da concorrência dos softwares livres.

De fato, nesta família de programas gratuitos, o código-fonte é público, sendo o produto do trabalho de uma vasta comunidade de programadores que colocam os seus resultados à disposição dos usuários na Internet. Frente ao Windows, o sistema operacional Linux destaca-se como o representante mais emblemático destes concorrentes; além disso, no campo dos softwares de gerenciamento de escritórios, o OpenOffice e o Mozilla já estão buscando competir com o Word, o Excel, o PowerPoint e o Outlook, todos da Microsoft.

Questões de segurança

De fato, os clientes mais importantes, sejam eles administrações públicas ou empresas privadas, têm-se mostrado cada vez mais seduzidos com esta alternativa. O setor privado mostra-se sensível em primeiro lugar ao argumento do custo. Não só a Microsoft tem aumentado regularmente o preço, já elevado, das suas licenças, como ela também não hesita a forçar a compra das novas versões de seus softwares, deixando de garantir a manutenção das antigas.

Já, para os governos, são as questões de segurança que têm a primazia. Além dos ataques de piratas e de vírus, que afetam principalmente os programas de informática da Microsoft, cuja sede fica em Redmond (Estado de Washington), em razão da sua onipresença, a desconfiança das administrações vai se aguçando frente à opacidade dos produtos da Microsoft, a qual sempre instiga uma suspeita latente de espionagem por parte dos Estados Unidos.

A dificuldade para consolidar uma imagem de credibilidade, um problema do qual o Linux e a sua série de aplicações sofreram por muito tempo, por causa do seu modelo de origem "libertária", não existe mais.

Várias editoras/distribuidoras tais como RedHat, Novell, Lindows ou ainda, na França, Mandrakesoft, construíram ema atividade comercial em torno dos softwares livres, oferecendo "pacotes" pagos que reúnem, em torno do núcleo do Linux, uma multidão de aplicações complementares e soluções de atualização automatizada ou de gestão de sistema.

Estes grupos fornecem quantidades crescentes de serviços de instalação, de formação, de assistência técnica, de manutenção... E, sobretudo, a família Linux tem contado com o apoio de padrinhos poderosos. Assim, a IBM investiu mais de US$ 1,3 bilhão (R$ 3,77 bilhões) para tornar compatíveis todos os seus produtos e formar mais de 7.500 assalariados à utilização do Linux. Por sua vez, a Hewlett-Packard e a Oracle também se destacam como promotores ativos do sistema operacional livre.

O resultado não se fez esperar: enquanto a Linux a conquistou 6% --uma parte ainda pequena-- do mercado dos sistemas operacionais para servidores, a sua parte já é superior a 30% entre os servidores da Web, e de 25% entre os servidores de empresas.

Hoje, o Linux já começa a ser instalado nos computadores de escritórios, enquanto o OpenOffice (que pode também rodar em ambiente Windows) galgou uma certa notoriedade.

O crescimento deste sistema alternativo permanece marginal, considerando-se as partes de mercado esmagadoras detidas pelo gigante de Redmond. Mas, segundo Ted Schadler, um analista do escritório de pesquisas de mercado Forrester, citado pela agência de notícias Asocciated Press, "é muito mais do que uma mera agitação. Existem decisões importantes sendo tomadas, muito dinheiro vem sendo movimentado, e a Microsoft começa a ser atingida pelas beiradas".

Frente à ofensiva deste rival de um gênero particular, que ela não pode nem comprar, nem copiar, a Microsoft primeiro adotou uma atitude de indiferença desdenhosa, que foi se transformando em difamação, o que incluiu, entre outros, o lançamento no início deste ano, de uma gigantesca campanha de publicidade na Europa e nos Estados Unidos, claramente anti-Linux.

Contudo, hoje, a concorrência do software livre não é mais apresentada pelo patrão da Microsoft, Steve Ballmer, como um "câncer", e sim como um "desafio". No seu relatório anual, que foi publicado no início de setembro, o grupo indicou pela primeira vez que "o sucesso de softwares não-comerciais" era suscetível de "atingir negativamente --a sua-- performance em 2005".

Um trunfo na manga

Portanto, a Microsoft passou a levar muito mais a sério os seus concorrentes "livres"... e, portanto, vem fazendo concessões: às empresas, reduzindo de modo substancial os preços de suas patentes; e às administrações, com o programa GSP de acesso ao código.

Neste ponto específico, o resultado é mitigado, uma vez que, em meados de setembro de 2003, a China, o Japão e a Coréia do Sul anunciaram a sua intenção de dar o seu apoio ao desenvolvimento de um sistema de exploração pan-asiático, fundado em torno do Linux.

Mas a firma de Redmond ainda conserva um trunfo na sua manga. Ela pretende conduzir uma política de propriedade intelectual mais agressiva, para dar vida às suas mais de 4.500 patentes que permanecem atualmente no limbo.

"No passado, a Microsoft registrava patentes dentro de uma abordagem essencialmente defensiva", explica Bernard Ourghanlian. "Hoje, nós estamos tentando fazer com que esta propriedade intelectual seja acessível da forma mais ampla possível, mediante retribuição". O que também pode querer dizer que certas tecnologias do universo da Microsoft, até então utilizadas por softwares livres, poderiam acabar sendo oferecidas apenas contra remuneração.

Princípios da informática aberta


Código-fonte

O código-fonte é a "receita" de um software e dele revelam os segredos de fabricação. Ele é composto por milhões de linhas de código informático, incompreensíveis para quem não é especialista.


Softwares livres

Assim são chamados os programas desenvolvidos por comunidades de especialistas em informática benévolos. O seu código-fonte é público e a sua utilização, assim como a sua cópia, são gratuitas.

Apesar de serem gratuitos, os softwares livres são geralmente submetidos, contudo, a uma licença de exploração. Esta última autoriza a modificação do programa pelo usuário, com a condição de que estas alterações sejam, por sua vez, também tornadas públicas.

Este princípio proíbe que todo e qualquer usuário possa se apoderar da propriedade intelectual de um software livre.



Le Monde




URL Fonte: https://homenews.com.br/noticia/2530/visualizar/