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Arqueologia
Segunda - 04 de Outubro de 2004 às 14:56

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O pesquisador Jean-Pierre Corteggiani sustenta a tese de que as autoridades egípcias estariam impedindo a comprovação da descoberta de uma câmara secreta onde pode estar a múmia do imperador Queops --a qual jamais foi encontrada.

Coteggiani é membro do Instituto Francês de Arqueologia Oriental (Ifao), no Cairo (capital do Egito), que apóia, há 17 anos, as pesquisas de outros egiptólogos, Dormion e Verd'hurt.

A seguir, trechos da entrevista feita pelo jornal francês Le Monde com Corteggiani.

Le Monde - Quais são, na sua opinião, os verdadeiros motivos da recusa das autoridades egípcias em permitir que seja praticada uma ínfima perfuração de uma parede, que permitiria comprovar esta descoberta?

Jean-Pierre Corteggiani - Evidentemente, seria preciso fazer esta pergunta às próprias autoridades egípcias. O que me parece curioso, é o aspecto categórico desta resposta. Todo pedido similar, em qualquer outro lugar, que se referisse a algum outro monumento, provavelmente não teria o impacto que este tem, uma vez que a Grande Pirâmide é sem dúvida o monumento mais mítico em todo o Egito, e até mesmo no mundo. Não se pode esquecer de que é a única das Sete Maravilhas do mundo que ainda está em pé.

Le Monde - O senhor acredita na tese da existência de uma câmara secreta?

Corteggiani - Eu não creio que seja uma câmara secreta, e sim uma câmara desconhecida, o que não é exatamente a mesma coisa. Além disso, de fato, não se trata de uma tese. Eu explico: é evidente que a câmara do rei era destinada a ser a câmara funerária de Cheops. O sarcófago que lá se encontra mostra isso.

O que é interessante no trabalho de Dormion e Verd'hurt, é que tudo se baseia em observações que todo mundo pode fazer mas que ninguém havia feito até então. É evidente que houve graves problemas no momento da construção da câmara do rei. Todas as nove vigas de granito que constituem o seu teto são rachadas do lado sul, praticamente contra a parede. É possível ver rachaduras bastante amplas que sobem. Constatou-se que estas vigas foram escoradas.

Há enormes sinais de escoras, que são provavelmente vigas de madeiras bastante grandes, uma vez que o teto fica a cinco metros do solo. O teto foi escorado dos dois lados, norte e sul. Do lado norte, não há nenhuma falha visível.

Em contrapartida, quando se sobe acima das lajes que formam o teto, percebe-se que elas são rachadas, sendo desta vez falhas que existem do lado norte, praticamente contra a parede norte. Ora, já que os construtores escoraram dos dois lados, isso quer dizer que eles já sabiam que a estrutura estava quebrada naquele lugar.

Conseqüentemente, isso comprova que o acesso à câmara de dispensa que se encontra acima da grande galeria, a mais de sete metros do patamar no qual o visitante se encontra quando está diante da entrada da câmara real, é necessariamente um acesso antigo. Resumindo, foram os próprios construtores que verificaram o estado das vigas, já que para aceder a esta câmara de dispensa, que normalmente não possui nenhum acesso aberto, a 7,5 metros de altura, dentro da parede leste da grande galeria, você precisa saber para onde está indo.

Le Monde - Não seria possível, com a tecnologia moderna, "ver" no interior através das paredes, sem tocar em nada?

Corteggiani - É mais ou menos o que foi feito. O geo-radar que foi aplicado a cada 50 centímetros sobre o solo da "câmara da rainha" indica, para o especialista que analisa os diagramas que ele tem no monitor, a presença de uma estrutura --são estes os termos usados pelo especialista-- a 3,5 metros abaixo do solo, horizontal, retilínea, de uma largura de pouco mais de um metro, mais exatamente 1,05 metro. Esta estrutura, que pode ser assimilada a um "corredor", fica no eixo leste-oeste da pirâmide.

Le Monde - Os seus argumentos para provar a existência desta câmara parecem inesgotáveis. Quais são os principais pontos que vêm a ser questionados pelos especialistas egípcios?

Corteggiani - Nenhum desses pontos é questionado precisamente. Eles se limitam a alegar que os dois pesquisadores são amadores e que eles não querem ouvir falar nisso. Não houve debate algum. Nos últimos dias, estive discutindo com pessoas que falavam de maneira categórica sem sequer terem lido o livro*.

Le Monde - Como o senhor explica que as pesquisas destes arquitetos sejam recebidas por muitos egiptólogos como "elucubrações" apesar de eles serem profissionais da construção?

Corteggiani - Só posso atribuir isso à má-fé de certas pessoas, que emitem julgamentos sem sequer terem lido o livro. Ora, um dos meus colegas belgas que o leu disse: 'É límpido e definitivo', enquanto um amigo arquiteto que trabalha no Egito, me disse após tê-lo lido, que achava tudo isso "brilhante". Eu aconselho a certas pessoas de terem a honestidade de falar com conhecimento de causa.

Le Monde - Será possível supor que as autoridades egípcias querem manter a exclusividade de uma eventual grande descoberta?

Corteggiani - É uma questão delicada. Talvez existam interesses que escapam do meu entendimento. Eu espero que as coisas possam ser feitas --por que não?-- em equipe, assim como foi o caso em outras oportunidades. Gilles Dormion e Jean-Yves Verd'hurt encontraram câmeras de dispensa desconhecidas dentro da pirâmide de Meidum, quando eles já estavam trabalhando em colaboração com os serviços das Antiguidades egípcias.

Le Monde - Por que o governo egípcio não quer ir adiante nesta investigação?

Corteggiani - Eu não posso responder no lugar dos responsáveis egípcios. Eu só tomei a liberdade de assinalar que o anúncio de uma descoberta importante na Grande Pirâmide só poderia ter repercussões econômicas importantes, estimulando o turismo.

Le Monde - Se os "amadores" forem descartados, será que uma equipe de especialistas poderia tomar o lugar deles?

Corteggiani - Existem portanto problemas em relação às pessoas envolvidas. Em primeiro lugar, eu recuso o termo de "amador". Gilles Dormion é um arquiteto que atua na pesquisa de pirâmides há 18 anos. Além disso, seria bastante estranho dizer a alguém: 'Vá embora daqui, você é um amador, e eu irei terminar o que você começou'.

Le Monde - Concretamente, o que ainda precisa ser feito para desvendar este segredo?

Corteggiani - Resta fazer duas perfurações de 1,5 cm de diâmetro dentro de uma tampa de gesso, o que permitiria fazer passar uma fibra óptica, assim como foi feito em Meidum, onde foram encontradas câmaras de dispensa cinco anos atrás, uma descoberta para a qual o secretário-geral dos serviços, na época, havia enviado uma mensagem de felicitações. E se esta fibra óptica permitisse visualizar uma ou duas grades, isso significaria que existe efetivamente um apartamento funerário desconhecido.

Le Monde - O que o senhor espera encontrar nele?

Corteggiani - A priori, se o rei foi enterrado ali, haverá o próprio rei e o seu material funerário. Mas é evidentemente impossível imaginar exatamente o que pode ser encontrado ali, uma vez que nunca foi encontrado nada comparável. Haveria certamente coisas que poderiam ser fabulosas, pois nós já conhecemos uma parte da mobília funerária da mãe de Cheops, composta por coisas de uma beleza extraordinária. Uma cama, poltronas, um baldaquino, tudo folheado a ouro, uma cadeira de carregadores, louça, jóias...

Além disso, seria de se esperar a presença dos chamados "textos das pirâmides" que aparecem nas paredes do túmulo real e que, a priori, já deveriam estar à disposição dos soberanos naquela época.

Le Monde - Por que os saqueadores teriam desistido de procurar por algum tesouro, ao encontrar a câmara do rei vazia, e principalmente sem a múmia?

Corteggiani - Simplesmente porque não havia razão para procurar em outro lugar. Os saqueadores devem ter acreditado que eles estavam chegando dentro de um monumento que já havia sido saqueado, provavelmente desde a Antiguidade. Não se pode estipular uma data, e, de qualquer forma, a mais tardia seria a perfuração de El-Maamoun, em 820.

Le Monde - Será que os arquitetos egípcios costumavam prever câmaras secretas nos edifícios que eles construíam?

Corteggiani - Eu repito que não se trata de uma câmara secreta, e sim eventualmente de uma câmara desconhecida. Na época de Cheops, visivelmente não existem engodos; ninguém procura enganar, criar caminhos falsos para ludibriar eventuais saqueadores. Esse tipo de coisa não irá aparecer antes do Médio Império.

Contudo, existe algo importante, que vai, no caso, no sentido da existência de algo particular na pirâmide: é uma tradição literária egípcia que data do Médio Império (cerca de 500 anos depois de (Cheops) e que mostra o rei preocupado em fazer na sua "eternidade", isto é, no seu túmulo, coisas especiais que eram do conhecimento de uma espécie de sábio mágico que um de seus filhos havia trazido para a corte para distrair o rei, uma vez que o personagem em questão supostamente conhecia os "planos" do templo de Thot, que era o deus da sabedoria e do conhecimento.

Essa tradição consta nos "Contos do papiro Westcar". Neles, está relatado que o rei passava o seu tempo a procurar para si mesmo estes planos, para fazer a mesma coisa na sua eternidade.

Le Monde - Portanto, não havia uma preocupação com o "segredo" na construção.

Corteggiani - Quando se considera a pirâmide, não há necessariamente um segredo, e sim a idéia de fechar o monumento para a eternidade. Se transpusermos isso para os túmulos reais no Vale dos Reis, todos sabiam onde eles estavam, mas eles estavam fechados para a eternidade.

Le Monde - Apesar de tudo, as dúvidas em relação à existência de uma outra câmara funerária debaixo do quarto da rainha permanecem inteiras.

Corteggiani - Eu vou retomar uma imagem que eu já apresentei em várias oportunidades: a existência da estrutura que se encontra debaixo da câmara da rainha me parece incontestável, na medida em que o especialista que afirma que existe ali um corredor trabalha para uma sociedade (a Safege) que, há vários anos, elabora o traçado dos TGVs.

Quando este especialista diz que o solo é fiável, e que nele podem ser colocados os trilhos sobre os quais o TGV irá passar a 300 km/h, levando dezenas de passageiros, é preferível que ele tenha razão... Por que estaria ele errado quando ele vem registrar medições na Grande Pirâmide?

Le Monde - Esta estrutura debaixo da câmara "da rainha" não poderia ser apenas um corredor conduzindo para uma câmara onde estaria uma múmia?

Corteggiani - O que importa é ver que a câmara da rainha por si só não pode ser uma câmara funerária, uma vez que ela não tem grades. Em compensação, ela comporta um nicho, uma cornija com modilhão e um corredor de serviço de mais de 4 metros de comprimento que desemboca neste nicho, os quais são elementos de uma arquitetura mais complexa.

A resposta, evidentemente, será dada pela fibra óptica no dia em que ela poderá ser introduzida do outro lado da parede. Se a grade estiver no lugar, seria estranho não haver nada atrás dela. Mesmo se tivessem armazéns, isso já seria extraordinário. Quero acrescentar algo importante: a análise de medições que foram feitas no final dos anos 80, e que foi publicada por ocasião de um colóquio na Grécia, concluiu que as rachaduras da câmara do rei poderiam ser explicadas por alguma coisa que estava em baixo dela. Esta avaliação foi co-assinada por um universitário egípcio.

Le Monde - Além deste caso preciso, o senhor acha que outras descobertas espetaculares (no estilo de Tutancamon) ainda poderiam ser feitas no que diz respeito ao Egito antigo?

Corteggiani - Sempre achei que o Egito era inesgotável, e creio que ainda há espaço para eventuais descobertas comparáveis à de Tutancamon. Alguns soberanos do Egito antigo não constam das descobertas que foram feitas até agora. Mas, talvez um egiptólogo preferisse encontrar textos históricos. Em janeiro de 1989, por exemplo, foram encontradas no solo do templo de Luxor várias estátuas em excelente estado e um tesouro da época romana, num dos templos do oásis de Kharga.

Le Monde - Quais conseqüências poderia ter o descobrimento da câmara do rei sobre a egiptologia?

Corteggiani - É difícil responder. O mais importante seria a eventualidade de encontrar textos ou elementos dos quais nós não temos nenhum exemplar real. Encontrar uma mobília funerária da 4ª dinastia, seria magnífico, e não só porque haveria ouro.

Le Monde - Não haveria uma competição entre uma arqueologia mais espetacular, e uma arqueologia mais acadêmica, ávida por textos históricos e não por tesouros e múmias?

Corteggiani - Nós vivemos numa época em que predominam os meios de comunicação; quando alguma coisa acontece em algum lugar, ela é repercutida do outro lado do planeta meia-hora depois. É preciso tentar conviver com esta pressão. Ao mesmo tempo, é o que nos permite continuar a trabalhar. Por que se recusar a ter o prazer de fazer uma magnífica descoberta?

*"La chambre de Chéops. Analyse architecturale", de Gilles Dormion,
Editora Fayard



Jornal Le Monde




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