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Ciência
Terça - 29 de Outubro de 2002 às 12:14

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Que melhor forma de matar um vírus do que provocar sua mutação até a morte, sabotando implacavelmente seus genes até não poder mais sobreviver? Se tudo sair conforme o plano, este é o destino reservado para o HIV e outros assassinos como o Ebola e o vírus do Oeste do Nilo.

A ferramenta para tal trabalho é uma nova classe de medicamentos para HIV chamada de "stealth nucleoside" (nucleoside furtivo). O primeiro teste da terapia em animais teve início na semana passada, após uma série de estudos bem-sucedidos em tubo de ensaio.

"Nós estamos forçando o vírus além do seu limite", diz Richard Daifuku, chefe da Koronis Pharmaceuticals, uma empresa de biotecnologia em Redmond, Washington, que está desenvolvendo os stealth nucleosides.

"Se as mutações ultrapassam um nível crítico, então o vírus não consegue mais se reproduzir", disse ele na semana passada, quando apresentou as mais recentes descobertas da empresa na conferência BioPartnering Europe em Londres.

A Koronis está confiante que devido a forma como o medicamente age, é improvável que o HIV desenvolva resistência. Isto porque o medicamento inflige danos extensos ao material genético do vírus, dano que é amplo e aleatório o suficiente para danificá-lo além de reparo. A esperança é que algumas doses do medicamento por dia possam substituir as complexas dietas de medicamentos atualmente usados contra o HIV, que envolvem tomar várias pílulas várias vezes por dia.

O stealth nucleoside de Daifuku, chamado de SN1212, foi desenvolvido para fazer com que o HIV o confunda com uracil -um dos quatro blocos de construção do RNA- e o incorpore ao seu RNA. O RNA adulterado embaralha a cópia complementar de DNA que o vírus forma a partir dele. Onde quer que o SN1212 se insira, erros aparecerão na cópia de DNA.

Normalmente, um bloco de construção adenina é acrescentado à cópia do DNA da seqüência viral para combinar cada uracil no filamento original de RNA. Mas o SN1212 foi desenvolvido para se unir a dois outros blocos de construção, a citosina ou guanina, assim como a adenina. O resultado é que o genoma viral inexoravelmente se enche de erros.

"Nós provocamos mutações em todos os genes virais", diz Daifuku. Isto difere da maioria dos medicamentos anti-HIV existentes como a lamivudina, que também afeta a multiplicação viral, mas o faz impedindo acréscimos de novos nucleosides. O problema com esta abordagem é que, depois de um tempo, algumas variantes do vírus se tornarão resistentes.

Daifuku reconheceu que ele não pode descartar a possibilidade de que algumas mutações beneficiarão o vírus. Mas as experiências em laboratório com as células infectadas sugere que para cada mutação benéfica haverá inúmeras outras que serão desastrosas para o HIV.

O stealth nucleosides deve afetar apenas material genético viral, e não o nosso. Isto porque nossas enzimas de reparo celular -que os vírus não têm- podem eliminar o SN1212 sempre que ele for adicionado erroneamente ao nosso DNA. "Os vírus não têm nossos mecanismos de revisão, que reparam os erros", diz Daifuku.

Mas ele admite que alguns erros podem se inserir no DNA dos pacientes, levando a um aumento teórico do risco de câncer. Mas ele está confiante de que o medicamento é seguro, por dois motivos. Ele é um desdobramento de um medicamento que já está em uso (que ele não quis citar o nome). E pesquisa recente sugere que a Ribavirina, um remédio existente para hepatite C vendido pela Schering, possui um mecanismo semelhante ao do SN1212. Não se considera que os pacientes que tomam estes medicamentos tenham aumentado seu risco de desenvolver câncer.

Fonte: New Scientist




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