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Arqueologia
Segunda - 23 de Janeiro de 2006 às 10:24

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Judas, o homem que, por 30 moedas, entregou Jesus aos soldados que o crucificaram, não seria um traidor mas sim um heroi.

Esta interpretação da historia pode ganhar força graças a um antigo documento que só agora está sendo traduzido. Sua publicação, prevista para abril, já causa polêmicas e divide os católicos.

O manuscrito, em copta, é do século quatro e foi descoberto nos anos 70, no Egito. Desde então passou por várias mãos e muitas aventuras, até chegar aos cofres da fundaçao Maecenas for Ancient Art (Mecenas para Arte Antiga, em tradução livre), de Basiléia, Suiça- atual proprietária, em sociedade com a National Geographic.

O texto, mantido sob sigilo, está sendo traduzido para inglês, francês e alemão por Rudolph Kasser, considerado como o maior especialista em língua copta do mundo.

Apócrifo

Quanto ao conteúdo, segundo estudiosos que tiveram acesso à copia de alguns trechos, não há duvidas. O código transcreveria o "evangelho de Judas", um apócrifo do século um.

Os evangelhos são a principal fonte de informações sobre Jesus Cristo.

A igreja reconhece quatro, que define como canônicos: Mateus, João, Marcos e Lucas.

Os apócrifos não têm autoridade canônica, mas influenciaram a interpretação da história e a maneira como ela foi reproduzida através da arte.

Na opinião de alguns estudiosos, o documento poderá revolucionar o modo de entender a primeira fase do cristianismo. E dar uma nova imagerm ao homem que traiu Jesus com um beijo.

O "evangelho de Judas" teria sido escrito por membros da seita gnóstica cainita, um movimento religioso cristão que misturava misticismo e filosofia e influenciou grupos heréticos.

Na visão dos cainitas, Judas Iscariotes teria seguido um desígnio divino e não podia fugir de seu destino. A traição faria parte do plano de Deus, era necessária, e sem ela não haveria salvação para os homens.

Confirmações

A existência desse evangelho e sua interpretação da figura do apóstolo, considerado maldito, é comprovada por diversos autores, entre eles S. Irineu, no texto Contra as Heresias, escrito em 180.

Segundo monsenhor Walter Brandmuller, presidente do Comitê de Ciências Históricas do Vaticano, os cainitas achavam que o mundo era expressão do mal. O bem, existia apenas na dimensão transcedental.

“Consideravam em modo positivo todas as figuras negativas das escrituras sagradas hebraicas e cristãs. Uma forma de oposição ao deus criador deste mundo, um deus mau, que ignorava o Deus verdadeiro", disse Brandmuller.

Monsenhor Brandmuller nega, contudo, que o Vaticano esteja promovendo uma campanha para reabilitar Judas.

O novo documento, que define como uma espécie de "ficção histórica", não deve provocar grandes mudanças, em sua opinião.

"Será um testemunho precioso para conhecer melhor o cristianismo primitivo", afirmou.

Outros católicos consideram importante uma revisão da figura que acabou por se tornar sinonimo de traição e que ainda hoje é simbolicamente castigada, através da "malhação de Judas", no Sábado de Aleluia.

Possuído

Para São Lucas e São João, Judas traiu porque estava possuído pelo demonio.

O escritor Vittorio Messori acredita que o manuscrito copta pode dar um impulso na reabilitação de Iscariotes.

Segundo o autor de vários livros sobre a Igreja Católica e amigo de João Paulo 2°, esta revisão é necessária. Resolveria, segundo ele, um problema aberto de justiça e misericórdia de Jesus, que teria perdoado a covardia de Pedro, mas não a traição de Judas.

"No evangelho apócrifo, Judas se arrepende. Jesus o perdoa e manda para o deserto, fazer exercícios espirituais. Nos evangelhos canônicos ele se suicida. Não há sinal de perdão, apesar de Jesus ter ensinado a perdoar os próprios inimigos”, afirmou Messori para o jornal La Stampa.

A ideia de um desígnio divino não é novidade, na avaliação de Alberto Mellone, professor de historia da Igreja Católica.

"Esta interpretação faz parte de uma catequese difusa", disse.

Mellone descarta também que a figura de Judas tenha tido alguma influência no surgimento e enraizamento do antisemitismo.

Alguns estudiosos defendem esta hipótese e acreditam que uma reabilitação da figura de Judas possa contribuir para o dialogo entre católicos e judeus.

"O antisemitismo cristão nada tem a ver com Judas mas com os sacerdotes de Israel. Baseou-se na acusação de assassinato de Jesus e não em sua delação", afirmou Alberto Mellone.





BBC, em Londres




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