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Astronomia
Quarta - 08 de Fevereiro de 2006 às 10:36

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Marcos Pontes

O problema é a tal da gravidade! Na verdade, a falta dela. Primeiro, é necessário conectar-se ao vaso. Depois, assegurar-se que "nada" irá retornar ao "local de origem" ou, pior ainda, ficar flutuando indevidamente pela cabine. Realmente, ir ao banheiro no Espaço não é simples. Conselho útil: nunca deixar para a última hora!

Na verdade, o procedimento não é complicado. Ainda bem. Mas precisa, como um todo, de um certo planejamento pessoal. Basicamente, a questão se divide em duas partes: como permanecer ligado ao vaso e como fazer para que qualquer material produzido, líquido ou sólido, siga na direção correta. As respostas a esses dois problemas são completamente cobertas pela metodologia do procedimento previsto no "check-list"* da espaçonave.

Como este é um assunto que aparece com grande freqüência na lista de curiosidades sobre a vida no Espaço, vamos falar um pouco sobre como funciona esse sistema no ônibus espacial.

Comecemos com a necessidade de "prender-se" ao vaso. Isso é feito com o auxílio de fitas restritoras equipadas com velcro para segurar os pés. Isto é, na frente do equipamento WMS, o Waste Management System, vulgarmente conhecido por vaso sanitário, existem dois suportes para os pés. Nas laterais desses suportes temos fitas cobertas com velcro que são ajustadas ao redor de cada pé. Assim, o primeiro passo na preparação para a "atividade" é assegurar-se que existe uma boa fixação dos pés.

Depois, uma vez sentado, o firme contato com o vaso é garantido por dois restritores metálicos retráteis. Eles são inicialmente localizados ao lado do assento. Um de cada lado. Para posicioná-los, eles devem ser levantados e girados sobre as coxas do astronauta, quase na altura da cintura. Utilizando molas, esses dispositivos mantêm o tripulante firmemente sentado, sem a necessidade de segurar-se nessa posição durante todo o processo. Não é necessário dizer que, logicamente, nesse passo do procedimento, as roupas já devem estar fora do caminho!

Acabou? Claro que não. Para estar "realmente conectado", também é preciso cuidar dos líquidos. Afinal, essas coisas, sólidos e líquidos, podem ser processadas ao mesmo tempo ou quase na seqüência! Inicialmente, é importante ressaltar que cada tripulante tem o seu próprio adaptador". É isso mesmo, adaptador! E, assim como escova de dentes, não se empresta esse item tão privado! Para não ter dúvida, cada um tem sua própria cor, individual. O comandante pode ser verde, por exemplo. O primeiro especialista de missão, azul. E assim por diante. Obviamente, são diferentes também em formato para homens e mulheres, é claro. Simples conseqüência do desenho original da natureza. Muito bem.

Conhecidos os adaptadores, vamos para o processo em si. No centro, na parte dianteira do vaso, o sistema possui um tubo para a coleta de urina. Na ponta do tubo encaixamos o adaptador que, por sua vez, é "adaptado no tripulante". Tudo conectado, tudo checado, estamos completamente prontos para "relaxar" e usar o sistema. Certo? Errado!

E a parte do direcionamento dos materiais produzidos? Isso é conseguido através do uso de uma sucção regulada de ar para interior do sistema. O diferencial de pressão é obtido gratuitamente do ambiente exterior, o espaço. Contudo, como nesse ambiente externo a pressão é praticamente nula (quase vácuo), é necessário controlar e reduzir essa diferença de pressão com relação ao ambiente interno da espaçonave. Isto é, deve-se ter apenas uma leve sucção. Afinal, ninguém quer que o tripulante seja "virado no avesso"!

Para tanto, existem vários reguladores e válvulas de segurança instalados nessa linha de descompressão. Essa linha é aberta através de uma válvula principal comandada na parte inferior direita do vaso. Portanto, abrir essa válvula é também um passo essencial do procedimento. Quando a linha é aberta, podemos ouvir da sucção, um som bastante alto, diga-se de passagem, e sentir o fluxo de ar no coletor de sólidos e no tubo para líquidos.

Agora sim, tudo ficou igual a ir ao banheiro aqui na Terra. Sem necessidade de explicações extras. Como auxílio operacional, caso alguma parte do procedimento seja esquecida ou simplesmente para leitura durante o "processo", o tripulante tem, a sua disposição, um "check-list" que contém a descrição detalhada de todos procedimentos necessários pelo sistema. Ele é fixado com velcro à parede do pequeno banheiro. Ainda, nessa mesma parede, do lado esquerdo, temos os lenços higiênicos para a limpeza pessoal após a atividade. Aliás, os passos para finalizar o procedimento são, basicamente, o caminho inverso do que foi feito anteriormente.

Primeiro, a válvula de sucção é desligada. Depois, o tubo de coleta de líquidos é desconectado. Para possibilitar a limpeza pessoal, solta-se o restritor das coxas. Os lenços utilizados são depositados em um recipiente do lado esquerdo do vaso. Finalmente, soltam-se as fitas restritoras dos pés. Não é necessário dar descarga. A sucção já cuidou de coletar os sólidos e líquidos no local correto no sistema. Nada é lançado ao espaço.

Ninguém quer produzir mais lixo espacial! Tudo fica estocado no veículo, em recipientes apropriados, durante toda a missão. Após o pouso esse material é recolhido e descartado pelo pessoal de suporte. Simples, não é? Mas espere, ainda faltou uma parte importante do sistema para ser descrita. Aliás, uma parte bastante peculiar. O orifício do vaso sanitário, por onde passam os sólidos, tem apenas oito centímetros de diâmetro. Isto é, ele é estreito. Somado a isso, como era de se esperar, dadas as restrições da microgravidade, não existe água de descarga no interior do vaso, como normalmente observamos aqui na Terra.

Como resultado, existe a necessidade de se "alinhar e acertar" corretamente o orifício durante o processo de "produção dos sólidos" para evitar deixar muitos resíduos nas paredes no coletor, visto que o próprio tripulante é responsável pela limpeza posterior do equipamento. Ou seja, é bom não errar o alvo! Para nos auxiliar nessa tarefa de "apontar" corretamente, existe uma câmera instalada dentro do vaso, produzindo imagens que são vistas pelo tripulante, durante o processo, em um monitor colocado na parede esquerda superior do banheiro. Bastante estranho, mas necessário. Realmente, nessa profissão temos que nos conhecer completamente. Algumas vezes até um pouco mais do que gostaríamos!

* Livro de bordo que contém todos os procedimentos operacionais previstos para serem executados pela tripulação em uma determinada fase do vôo.

Mais informações: http://www.marcospontes.net




Redação HomeNews




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