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Astronomia
Sexta - 14 de Março de 2003 às 16:18

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Quando a sonda espacial Mars Global Surveyor, da Nasa (agência espacial norte-americana) fotografou áreas que pareciam representar canais escavados por chuvas recentes na superfície de Marte, três anos atrás, os pesquisadores ficaram atônitos. O planeta é extremamente seco. O que poderia ter esculpido aquelas estranhas formas? Agora, graças a dados da espaçonave Mars Odyssey 2001, parece ter surgido uma resposta: neve derretida.

As ravinas foram criadas por água escorrendo de formações de gelo em derretimento, e não por correntes subterrâneas ou fluxos pressurizados, como sugeriam hipóteses anteriores, argumenta Philip Christensen, professor da Universidade Estadual do Arizona e principal investigador do sistema de câmera da Odyssey. A água se derrete e pode fluir por sob formações de neve, onde fica protegida contra uma rápida evaporação na atmosfera pouca espessa do planeta, explica Christensen na edição eletrônica de 19 de fevereiro da revista "Nature".

A idéia dele tomou forma enquanto ele observava uma imagem da Mars Odyssey que mostrava uma cratera de impacto marciana. Ele percebeu que havia ravinas erodidas na fria parede norte da cratera, e imediatamente adjacente a elas uma seção de algo que ele descreveu como "terreno sobreposto". Esse tipo bastante raro de terreno representa um depósito liso de material que os pesquisadores de Marte concluíram que seja "volátil" (composto de materiais que se evaporam na atmosfera pouco densa do planeta), porque caracteristicamente ocorre nas áreas mais frias e mais protegidas. A composição mais provável desse material que se evapora lentamente é neve. Christensen passou a suspeitar que havia uma relação especial entre as ravinas na superfície marciana e a neve.

"Eu vi as imagens e disse para mim mesmo que tinha encontrado alguma coisa", relembra Christensen. "A aparência dominante é de que essas ravinas estão sendo expostas à medida que o terreno sobreposto é removido pela evaporação e pelo derretimento".

Ravinas erodidas em paredes de crateras e nas encostas de formações montanhosas foram observadas inicialmente em imagens capturadas pela sonda Mars Global Surveyor em 2000. Surgiram outras teorias científicas para explicar as ravinas, incluindo vazamento de água do lençol freático, fluxos pressurizados de água (ou dióxido de carbono) no solo e deslizamentos de terra causados pelo colapso de depósitos de permafrost (solo congelado), mas nenhuma das explicações oferecidas até agora obteve aceitação generalizada.

"As ravinas são muito jovens",disse Christensen. "Isso sempre me incomodou. De que maneira seria possível que Marte tivesse um lençol freático próximo o suficiente do solo para formar essas ravinas, e ainda assim a água nele depositada se manter presente por bilhões de anos? Segundo, temos crateras com bordas elevadas, e as ravinas chegam praticamente à crista dessas bordas. Se estamos falando de um aqüífero subterrâneo que vaze para a superfície, não temos uma camada subterrânea muito extensa, nesse caso. E, por fim, qual seria o motivo para que elas ocorressem preferencialmente na face fria de encostas em latitudes médias do planeta?" Esse é o lugar mais frio e o menos provável para que águia do lençol freático surja à superfície.

Christensen aponta que encontrar erosão por água sob depósitos de neve em processo de derretimento responde a muitos desses problemas.

"A neve, em Marte, tem maior probabilidade de se acumular nas encostas que ficam de frente para os pólos norte e sul -ou seja, para as áreas mais frias. Ela e se acumula e recobre a paisagem dessas áreas durante um período climático, e depois se derrete no seguinte. O derretimento começa primeiro na área mais exposta na crista da encosta. Isso explica por que as ravinas começam tão no alto".

Assim que começou a pensar sobre a neve, Christensen começou a encontrar um grande número de outras imagens mostrando uma relação semelhante entre os depósitos de neve "sobrepostos" e as ravinas, em imagens de alta resolução obtidas pela câmera do Mars Global Surveyor. No entanto, foi o amplo campo de visão oferecido pela câmara de luz visível do Mars Odyssey, parte de seu sistema de imagem de emissões termais, que se provou crítico para comprovar a teoria.

"A idéia básica (da neve derretida) pode ser entendida por meio de uma visão regional, algo que o sistema de câmera da Odyssey oferece", explica. "É como um problema do gênero não poder ver a floresta por causa das árvores. Uma imagem da Odyssey faz com que tudo subitamente clique, porque a resolução é alta o suficiente para identificar essas características e no entanto baixa o bastante para demonstrar as relações entre elas na paisagem".


Por Tony Phillips, da Nasa




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