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Ciência
Segunda - 14 de Abril de 2003 às 16:54

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Um acidente em um laboratório que esteriliza moscas responsáveis pela "bicheira", provocou uma epidemia de larvas comedoras de carne no gado, com um custo de limpeza de pelo menos US$ 2 milhões.

O laboratório na região de Chiapas, sudeste do México, produz mais de 150 milhões de moscas do tipo Cochliomyia hominivorax estéreis por semana, como parte do programa do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos de erradicação do inseto. Até o incidente, o programa tinha eliminado o parasita devastador Cochliomyia hominivorax do México, Guatemala, Belize e grande parte do Panamá.

Técnicos da instalação irradiam as larvas da mosca para torná-las estéreis. Então eles liberam as moscas nas áreas infectadas em um esforço para interromper o ciclo de vida da espécie. Mas segundo Craig Fedchock, do Serviço de Inspeção de Saúde de Animais e Plantas (Aphis) do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, "fios foram cruzados" durante a manutenção de rotina de uma das máquinas da instalação. "O irradiador ficou ineficaz e moscas não estéreis foram liberadas", disse Fedchock.

No início de fevereiro, aviões dispersaram sem saber pelo menos 4 milhões de moscas férteis por Chiapas e pelo Panamá. Os diretores da instalação notaram que o sistema não estava funcionando vários dias depois da manutenção, e imediatamente divulgaram alertas de que um surto era iminente. Cerca de 500 cabeças de gado no sul do México e no Panamá foram infectadas.

O acidente é o primeiro do gênero desde que o Aphis estabeleceu o programa no México em 1972, e criou um caro obstáculo para a meta da agência de erradicar a mosca Cochliomyia hominivorax do Panamá até o final deste ano. Apesar de grande parte do país estar livre da peste, o Aphis está lutando com um pequeno trecho isolado de floresta na fronteira colombiana, onde o terreno e a presença de guerrilhas paramilitares torna a vigilância um desafio perigoso.

Até o incidente em Chiapas, o programa do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos era um exemplo notável da "tecnologia do inseto estéril" (TIE), que a agência desenvolveu em 1956 para combater a mosca. O parasita infecta os animais e os humanos depositando ovos ao redor de feridas abertas. Estes chocam e se alimentam da carne viva antes de pupar e se transformarem em moscas adultas.

O inseto já foi endêmico por todas as Américas. Nos Estados Unidos ele representou um prejuízo de milhões de dólares na pecuária até 1982, quando a TIE finalmente livrou o país do parasita. Os governos americano e mexicano se aliaram em 1972 para aplicar a TIE por todo o México, eliminando com sucesso a mosca de grande parte do país. Isto aumentou a produção de gado, e ajudou a estabelecer o México como um dos maiores exportadores de carne bovina do mundo.

A TIE desde então tem sido aplicada em várias partes do mundo, mais recentemente em Zanzibar, uma ilha da Tanzânia, onde a ONU a usou com sucesso para erradicar a mosca tsé-tsé. Mas os esforços para empregar a TIE na África enfrentam a resistência de muitos cientistas. Eles argumentam que enquanto a infra-estrutura razoavelmente estável no México e na América Central tem permitido que as equipes monitorem a movimentação das moscas com facilidade, os cientistas na África enfrentam um terreno hostil, inquietação civil e poucos recursos. Além disso, há 22 espécies diferentes de tsé-tsé. "Em algumas partes da região pode funcionar", diz Fedchock, "mas a chave seria primeiro estabelecer uma infra-estrutura".

Apesar do Aphis ter respondido eficientemente ao surto, graças a mais de 50 anos de experiência com a peste, o episódio foi oneroso. A agência teve que montar bloqueios de estradas e postos para controle de animais por todo o sul do México e Panamá, e começou a liberar o dobro do normal de moscas estéreis para erradicação, para conter o avanço do surto. Não há mais informes de animais infectados após a segunda semana de março.

"Sim, nós tivemos um acidente, um feio, mas nós temos tamanho domínio da técnica que sabemos como lidar com uma ocorrência", disse Fedchock.


Fonte: New Scientist




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